Apontamentos Conceitos de nível básico

Conceitos de nível básico

Os falantes de uma língua podem designar entidades usando conceitos mais ou menos detalhados, dependendo de seus objetivos. Por exemplo, nós podemos dizer para vocês que vivemos cercados por animais. Mas podemos dizer também, que vivemos cercados por cachorros.

Podemos ser mais específicos, e dizer que vivemos cercados por pastores alemães. Mas existe um nível de conceito que é mais saliente, e é chamado de nível básico.

Nesse nível estão os conceitos pelos quais designamos as entidades do mundo, quando não precisamos ser nem mais genéricos, nem mais específicos.

Por exemplo, imaginem que estamos em casa conversando com alguém e ouvimos um barulho do lado de fora. A pessoa nos pergunta que barulho é aquele. Olhamos pela janela e vemos um grande cão-de-montanha bernense brincando na calçada.

Das três alternativas abaixo, qual vocês acham que escolhemos para responder a nosso interlocutor?

a) Tem um animal brincando na calçada.
b) Tem um cachorro brincando na calçada.
c) Tem um cão-de-montanha bernense brincando na calçada.

A alternativa escolhida deve ter sido a (b), porque não faz sentido, nessa situação, ser muito genérico usando a palavra ‘animal’, nem precisamos ser muito específicos mencionando a raça do cachorro. O mais importante é explicar o tipo de barulho que chamou a atenção, e o termo ‘cachorro’ faz exatamente isso.

Sabemos que cachorros têm tipicamente um certo tamanho, um certo jeito de andar, de interagir com seres humanos, de brincar, de ocupar o espaço público, de fazer barulho que é bem diferente dos jeitos de gatos, passarinhos ou ratos, por exemplo.

Há mais diferença entre um cachorro e um gato, nesses aspectos, do que entre uma raça de cachorro e outra. É isso que é especial em relação ao nível básico. É nesse nível que categorizamos as entidades com mais eficiência, para a maioria dos fins práticos do dia-a-dia.

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Usamos o termo ‘cachorro’, do nível básico, porque o termo ‘animal’ não traz a informação necessária para formar uma imagem do que provavelmente está acontecendo na rua, e o nome da raça traria informação demais, informação desnecessária (coloração, porte, tipo de rabo, etc.).

Pensem também em uma outra situação. Quando fazemos uma viagem pela zona rural, vemos animais que chamamos de ‘vacas’. Nunca nos referimos a eles como ‘animais’, nem como ‘nelore’, ‘hereford’ ou ‘zebu’.

O termo ‘vaca’ corresponde à categoria do nível básico, isto é, o nível que mais diferencia as categorias, de acordo com a nossa experiência direta com membros da categoria.

Podemos dizer então que as palavras associadas a conceitos do nível básico são aquelas que são usadas para fazer referências a entidades em situações típicas do dia-a-dia, a não ser que existam boas razões para sermos ou mais genéricos, ou mais específicos.

Em geral, os estudos que se interessam pelas categorias e por sua organização partem da idéia de que os conceitos são entendidos como um feixe de traços (ou, em outras palavras, um conjunto de atributos).

Assim, por exemplo, o conceito [AVE] pode ser caracterizado por uma série de atributos como {animal, ovíparo, tem bico, tem penas, voa,…}. É importante lembrar que esses atributos não devem ser entendidos como um conjunto de condições necessárias e suficientes.

Mais adequadamente, eles devem ser vistos como atributos que caracterizam o membro prototípico da categoria. Nesse sentido, o gavião é um membro prototípico da categoria AVE, do mesmo modo que o pardal, o sabiá, a águia, o urubu. E a avestruz? Bem, a avestruz tem várias das características do conceito [AVE], mas não voa.

O mesmo acontece com o pingüim. Será que pingüim e avestruz deixam então de ser aves? Claro que não. Eles só não são membros prototípicos da categoria. Dizemos que eles se afastam do protótipo.

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Experimentos têm demonstrado que as categorias do nível básico são aquelas que se caracterizam por apresentar um grande número de atributos.

Além disso, grande parte dos atributos de uma categoria de nível básico tende a não ser compartilhada por outra categoria do mesmo nível. Assim, o conjunto de atributos que compõem o conceito [CACHORRO] é, em grande medida, diferente do conjunto de atributos que compõem o conceito [VACA].

Diferentemente, conceitos de categorias do nível abaixo d nível básico, ou seja, conceitos mais específicos, como [POODLE], [BEAGLE], [FOX], para cachorros, e [NELORE], [HEREFORD], [ZEBU] para vacas, compartilham um grande número de atributos entre si.

Já os conceitos de categorias do nível acima do nível básico, ou seja, conceitos de categorias mais abstratas, têm comparativamente poucos traços.

Pensem no conceito [ANIMAL], por exemplo. Quais seriam seus atributos? Certamente algo bem genérico, como {ser vivo, animado,…}.

Do ponto de vista de suas características lingüísticas, os conceitos do nível básico são codificados por palavras morfologicamente mais simples, curtas, e com alta freqüência de ocorrência. Por exemplo, palavras simples e comuns como ‘cadeira’, ‘sofá’, ‘mesa’, ‘cama’ expressam conceitos do nível básico da categoria MOBÍLIA.

Os conceitos abaixo do nível básico muitas vezes são expressos por palavras morfologicamente complexas, como ‘cadeira de cozinha’, ‘cadeira de sala de jantar’, ‘cadeira de escritório’, ‘sofá-cama’, ‘mesa de jantar’, ‘mesa de reunião’, ‘cama de casal’, ‘cama de solteiro’, etc.

Os conceitos do nível acima do nível básico muitas vezes têm nomes técnicos e pouco usados, como ‘assentos’, ‘mobília’, ‘objetos domiciliares’, ‘artefatos’, por exemplo.

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