Apontamentos Alguns Preconceitos Banais

Alguns Preconceitos Banais

“Só existe uma maneira de ser executado e essa é a maneira certa” é um grito dos artesãos frequentemente ouvido, mas também dos projectistas. No entanto, conforme o nosso conhecimento aumenta através da análise e da investigação, torna-se aparente que existem sempre muitas “maneiras certas” assim como existem muitos edifícios com estuques históricos, especialmente dos tempos pré Vitorianos.

Acredita-se vulgarmente que as proporções ideais são de 1 parte de cal para 3 partes de areia do pinhal, lavada e de arestas vivas, para as camadas de base e de, aproximadamente, partes iguais de cal e de areia branca para as camadas de acabamento. No entanto, a análise mostrou que existem todas as permutações desde estuques da cal pura até estuques de argila pura.

Os agregados variam desde os grosseiros até aos finos, e desde as arestas vivas até aos arredondados. As areias, tal como as entendemos, frequentemente nem sequer são encontradas. As relações entre ligante e agregado variam desde o rico em cal até ao escasso em cal. A crina, por vezes, nem sequer é encontrada, enquanto que noutros locais é encontrada em tal abundância que as lâminas de estuque podem ser literalmente enroladas como uma carpete sem se produzirem danos significativos. A crina pode ser encontrada até nas camadas de regularização. Surpreendentemente, é frequente que os analistas encontrem crina fina, branca (ou colorida,) bem talochada contra a superfície e quase invisível, mesmo depois de ser decapada a pintura.

De igual forma, sustenta-se que se pode sempre tentar tornar as argamassas de cal mais fortes.

Na realidade, as argamassas de cal podem ser esfregadas e polidas com água de cal para assumirem um acabamento quase como mármore, se tal for pedido. No entanto, é frequente serem os materiais mais fracos e macios que sobrevivem mais tempo. Os estuques de cal brandos e ricos em crina podem acomodar uma quantidade quase extraordinária de movimentos estruturais, enquanto que as suas contrapartidas mais fortes se teriam partido e destacado em lâminas.

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No trabalho moldado, nas mestras e nas camadas de acabamento as argamassas nunca eram adicionadas com gesso. O uso do gesso parece variar conforme a localidade, a riqueza do cliente, a proximidade de minas de gesso e a prática local, apesar de, claro, o seu uso se ter tornado dominante durante o século XIX, conforme o gesso se ia tornando mais fácil de comprar.

As técnicas usadas variam constantemente. Os preconceitos mais vulgares são:

  • Que juntas nas alvenarias de tijolo e de pedra devem ficar abertas para se garantir uma melhor ligação. Esta é uma falácia comum e deriva da prática moderna com os rebocos de cimento. De facto, ao proceder-se assim com os rebocos de cal acabamos por ter a aplicação de uma camada de espessura irregular, fina sobre os pontos altos da pedra e talvez com 50 mm de espessura ou mais por cima das juntas. Isto faz com que existam pontos com secagem diferente dentro da mesma camada e que seja preciso um cuidado adicional com o seu aperto, tendo em vista a contenção da fendilhação.
  • Que as camadas de base devem ser arranhadas com um “arranhador” constituído por três fasquias aguçadas. Embora esta seja certamente uma boa pratica tradicional, ela não é de forma alguma essencial. Os tectos de Woodchester Mansion foram arranhados em dois sentidos cruzados com um “arranhador” de fasquias mas as paredes foram economicamente ligadas com a lâmina plana de uma colher de amassar. No Thirlestane Castle o picotado foi feito pela utilização de um pente de pregos de estucador, mas que tinha as cabeças em contacto com o estuque e não as pontas.
  • A fissuração das cmadas de base é inaceitável. Em Woodchester Mansion, uma casa Vitoriana, inacabada e abandonada, vemos trabalhos de estuqe em todas as fases, desde o substrato despido até à camada de acabamento completa. É evidente que foram aplicadas as camadas de base, e minimamente apertadas, ficando a fissuração controlada, mas mais importante ainda, a camada de acabamento não era aplicada antes que as camadas de base estivessem completamente secas, para que nenhuma fissuração posterior ficasse aparente através do acabamento.
  • Que os agregados eram mais finos nas camadas exteriores doi que nas camadas de base. Mais uma vez, isto é frequentemente verdade nos trabalhos em interiores, mas num exemplo em Prior Park, os agregados na camada exterior vão até 20 mm de diâmetro, enquanto que os da camada de base raramente excedem os 9 mm.
  • Que as camadas são progressivamente mais finas em direcção à superfície. Embora isto seja muitas vezes verdade, existem excepções. As Roman Baths 1, em Bath, datadas de séculos antes de Cristo, têm trabalhos em estuque com uma espessura total de cerca de 30 mm, em que a camada exterior é de 20 mm. Em Prior Park, o trabalho do século XIX, que parece seguir a boa prática do “estado da arte”, consiste numa primeira camada de
    regularização com cerca de 5 – 10 mm enquanto que a camada única de acabamento varia entre os 20 – 35 mm.
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Em conclusão, o trabalho de estuque é provavelmente a menos definida das artes. A compreensão dos seus materiais, o “desaprender” de muitos preconceitos, a utilização de ferramentas tradicionais e a minuciosa observação dos originais que sobrevivem, são as chaves para a preservação deste património nacional. A boa prática moderna á apenas um ponto de partida para um negócio rico em surpresas inesperadas.