Apontamentos A decomposição lexical

A decomposição lexical

Os estudos do significado linguístico que têm base na lógica estão entre aqueles que procuram marcar uma distinção categórica entre Semântica, de um lado, e Pragmática, de outro.

Teorias que são  favoráveis a essa separação entendem que a Semântica deveria estudar o significado propriamente linguístico, aquele que diz respeito às características centrais do conceito associado às expressões, independente dos contextos de uso.

A Pragmática, por outro lado, deveria fazer a análise do significado extra-linguístico, aquele que diz respeito às associações que uma expressão linguística traz consigo, ou às conclusões que podem ser tiradas a partir de um uso particular de uma expressão linguística, e que estão diretamente relacionadas ao nosso conhecimento de mundo e ao contexto em que as expressões lingüísticas são usadas.

No que diz respeito à delimitação de seu objeto de estudo, as teorias semânticas de base lógica focalizam o estudo do significado dos itens lexicais e das sentenças, deixando de lado tudo aquilo que é externo a eles.

Desse modo, essas teorias excluem de seus objetivos o estudo da participação de nosso conhecimento de mundo na construção das conceitualizações, sob o argumento de que esse conhecimento de mundo — também chamado conhecimento enciclopédico — é extra-linguístico.

Desse modo, na perspectiva das teorias semânticas baseadas na lógica, o estudo desse conhecimento deve ficar a cargo da Pragmática.

De acordo com as teorias semânticas de base lógica, o significado linguístico de uma palavra, por exemplo, pode ser decomposto em um conjunto de traços semânticos. A palavra ‘menino’ teria, então, os seguintes traços:

[+humano, +masculino, -adulto].

A palavra ‘homem’ tem um significado diferente do de ‘menino’ porque tem um traço diferente, ou seja, em vez de ter um traço [-adulto], tem um traço [+adulto]:

[+humano, +masculino, +adulto].

A palavra ‘menina’ teria o seguinte conjunto de traços:

[+humano, -masculino, -adulto];

e a palavra ‘mulher’ seria definida pelo seguinte conjunto de traços:

[+humano, -masculino, +adulto].

Como vimos, a visão clássica de categoria é a de que as categorias se definem por um conjunto de condições necessárias e suficientes.

Da mesma maneira, a visão decomposicional do significado lingüístico entende que o significado dos itens lexicais se define por um conjunto de traços, que são individualmente necessários e conjuntamente suficientes para que se chegue ao conceito daquele item lexical.

Essa visão do significado das palavras parte do princípio de que uma língua será mais eficiente se separar os conceitos por quantidades mínimas de significado, que são os traços.

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Tanto quanto a visão clássica de categoria, a visão de que o significado lingüístico pode ser decomposto em um conjunto de traços é bastante problemática.

O centro do problema está justamente na separação estrita feita entre Semântica e Pragmática. Como já apontado na Unidade 1, para entendermos o significado das expressões lingüísticas não podemos nos limitar às propriedades semânticas que servem de ponto de acesso a um determinado conceito, e que, na visão das teorias de decomposição lexical, correspondem aos traços semânticos.

É fundamental adicionar nosso conhecimento enciclopédico a essas propriedades semânticas, para que tenhamos o entendimento completo do significado de uma expressão linguística.

Vamos tomar como exemplo a palavra ‘solteirão’. Se ficarmos presos à visão de decomposição lexical, vamos ter que dizer que um solteirão é um homem adulto não-casado.

A decomposição semântica dessa palavra levaria aos seguintes traços:

[+humano, +masculino, +adulto, -casado].

Mas, será que solteirão é só isso? Pensem, por exemplo, em um homem solteiro de 21 anos, que está namorando uma colega de faculdade. Será que ele seria considerado um solteirão? Certamente não! Por que?

Porque sabemos que solteirões são homens que já atingiram uma certa idade –- mais ou menos 35 ou 40 anos –- e ainda não se casaram. Portanto, o homem solteiro de 21 anos, apesar de ser adulto e não ser casado, ainda não pode ser considerado um solteirão.

Vamos pensar ainda em um outro caso. Vamos imaginar um homem de 40 anos, que gosta de ficar em casa lendo, ouvindo música, e que tem uma namorada há já uns dez anos. Vamos imaginar que esse homem e essa mulher tenham optado por não se casar e morar em casas separadas, como é bem comum hoje em dia. Apesar dessa liberalidade, esse homem e essa mulher são bastante companheiros e são fiéis um ao outro.

Vocês acham que seria apropriado considerar esse homem um solteirão? Afinal, ele é um homem adulto e não-casado. Mas nesse caso também não é apropriado usar o termo ‘solteirão’ para fazer referência a esse homem.

Sabem por que? Porque existe um estereótipo sócio-cultural associado ao termo ‘solteirão’, que nos faz pensar que solteirões têm uma vida desregrada, gostam de ir para as baladas, trocam de namorada freqüentemente, e não querem saber de compromisso com ninguém.

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Vamos pensar ainda em outro caso. O Papa é um homem adulto e não pode ser casado. Vocês acham que seria correto pensar que o Papa é um solteirão?

De jeito algum! Não existe nada mais distante do conceito de solteirão do que o Papa!

Portanto, não adianta sabermos que solteirão é um homem adulto que não se casou. Precisamos saber de muito mais coisas do mundo, de nossa sociedade e de nossa cultura para entender o conceito de solteirão.

Vejam que várias expressões lingüísticas dependem de nosso conhecimento enciclopédico para ter seus significados completamente definidos.

Nós vimos anteriormente que, pela visão de decomposição lexical, o termo ‘menina’ pode ser caracterizado pelos traços [+humano, -masculino, -adulto].

Agora, considerem uma sentença como ‘O João vai se casar com uma menina muito legal’. Será que o João vai ser casar com uma criança? Claro que não! Ninguém pensa isso. Todo o mundo sabe que podemos usar o termo ‘menina’ para fazer referência a uma mulher adulta, em alguns contextos particulares.

Portanto, não podemos ficar limitados a um conjunto de traços para determinar o conceito associado a uma expressão lingüística. Precisamos de um conhecimento mais vasto, que é o nosso conhecimento enciclopédico.

Com isso, não estamos querendo dizer que seja errado estudar o significado de uma palavra equiparando as propriedades de seu referente a traços semânticos. Como já visto na Unidade 2, os conceitos — ou as categorias que a eles estão associados — podem, sim, ser concebidos inicialmente como um feixe de traços, ou um conjunto de atributos.

Entretanto, primeiramente, esses traços não podem ser entendidos como condições necessárias e suficientes para a caracterização de absolutamente todos os membros de uma categoria.

Em geral, eles servem apenas para caracterizar os protótipos de uma determinada categoria, e não todos os seus membros.

Segundo, como acabamos de ver, esses atributos são apenas uma parte de um conceito. Eles não podem ser considerados como o conceito completo de um certo item lexical, na medida em que nosso conhecimento de mundo, e o contexto de uso do item lexical contribuem substancialmente para a determinação de seu significado.

Na Unidade 5, vamos ver em mais detalhes o que é essa visão enciclopédica ou esse conhecimento de mundo.

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