Um panorama geral do conceito Ética

Em todos os instantes, os meios de comunicação social, anunciam que é preciso mais ética nas relações humanas, na política, nas relações internacionais, na globalização, na ciência, nas empresas, nos bairros, em suma, em todos os âmbitos da vida. Afinal o que é a ética? É difícil responder com exactidão a pergunta, porém, para responde-la, vamos percorrer algumas ideias sobre a etimologia da palavra, passando pelas diversas definições dadas por alguns autores, para depois ressaltar que a ética só existe após o surgimento da filosofia, primeira forma racional de explicar a realidade.

Os conceitos de Moral e Ética, embora sejam diferentes, são com frequência usados como sinônimos.

É que se por um lado, Moral provém do latim mos ou moris, que significa “maneira de se comportar regulada pelo uso”; daí relacionarmos o termo “moral” com “costume”, e de moralis, morale, adjectivo referente ao que é “relativo aos costumes,” por outro lado, Ética provém do grego ethos, que tem o mesmo significado de “caráter”, “costume”. O sentido que os antigos gregos atribuíam ao homem de bons costumes era o mesmo do homem de boa índole, de bom caráter. Por isso, os termos Moral e Ética se confundem, mas guardam entre si certas diferenças.

Ora, os costumes, porque são precedentes ao nosso nascimento e formam o tecido da sociedade em que vivemos, são considerados inquestionáveis e quase sagrados (as religiões tendem a mostrá-los como tendo sido ordenados pelos deuses, na origem dos tempos). Contudo, a palavra costume se diz, em grego, ethos – donde, ética – e, em latim, moris – donde, moral. Em outras palavras, ética e moral referem-se ao conjunto de costumes tradicionais de uma sociedade e que, como tais, são considerados valores e obrigações para a conduta de seus membros.

Sem alguma deslocação do eixo de reflexão em termos etimológicos e conceptuais relacionais entre a ética e moral, Henriques de Lima Vaz (2002), faz vir à tona uma outra reflexão que consubstancia aquela supracitada na medida em que outorga que, a palavra Ética vem do grego ethos, com dois significados: éthos– que significa costumes e êthos a significar carácter. O primeiro ethos, “costume” é entendido como morada do homem, pois, é justamente por meio do ethos que o mundo se torna habitável, e se abre o espaço humano do ethos, no qual se inscrevem os costumes, hábitos, os valores, as acções, ou seja no qual a moral de um povo se constitui. O espaço humano do ethos, não é dado ao homem como o é o espaço da natureza, mas é incessantemente construído. A morada do homem nunca está pronta. Sempre é possível melhorá-la e aproximá-la à perfeição. Isso revela a existência de um ideal ou de uma ciência capaz de mostrar quais as partes de nossa morada que ainda podem ser reformadas e melhoradas.

Curiosamente, a língua grega possui uma outra palavra que precisa ser escrita em português com as mesmas letras que a palavra que significa costume: ethos. Em grego, existem duas vogais para pronunciar e grafar nossa vogal e: uma vogal breve, chamada épsilon, e uma vogal longa, chamada, eta. Ethos, escrita com a vogal longa, significa costume; porém, escrita com a vogal breve, significa caráter, índole natural, temperamento, conjunto das disposições físicas e psíquicas de uma pessoa. Nesse segundo sentido, ethos se refere às características pessoais de cada um que determina quais virtudes e quais vícios cada um é capaz de praticar. Referem-se, portanto, ao senso moral e à consciência ética individuais.

Entretanto, deixando essas curiosas questões etimológicas, a moral tem sido definida como um conjunto das regras ou normas de conduta admitidas por uma sociedade ou por um grupo de homens em determinada época. Assim, o homem moral é aquele que age bem ou mal na medida em que acata ou transgride as regras do grupo, do seu grupo. Nesse sentido, a moral, ao mesmo tempo que é o conjunto de regras que determina como e qual deve ser o comportamento dos indivíduos do grupo, é também a livre e consciente aceitação das normas.

Isso significa que o acto só é propriamente moral se passar pelo crivo da aceitação pessoal da norma. A exterioridade da moral contrapõe-se à necessidade da interioridade, da adesão mais íntima. Portanto, o homem, ao mesmo tempo que é herdeiro, é criador de cultura, e só terá vida autenticamente moral se, diante da moral constituída, for capaz de propor a moral constituinte; aquela que é feita dolorosamente por meio das experiências vividas. Mesmo quando queremos manter as antigas normas, há situações críticas enfrentadas devido à especificidade de cada acontecimento. Por isso a cisão também pode ocorrer a partir do enredo de cada drama pessoal: a singularidade do acto moral nos coloca em situações originais em que só o indivíduo livre e responsável é capaz de decidir.

Enquanto isso, a Ética ou filosofia moral, é o tratado filosófico que se ocupa com a reflexão a respeito das noções e princípios que fundamentam a vida moral. Essa reflexão pode seguir as mais diversas direcções, dependendo da concepção de homem que se toma como ponto de partida. Assim, à pergunta “o que é o bem e o mal”, respondemos diferentemente, caso o fundamento da moral esteja na ordem cósmica, na vontade de Deus ou em nenhuma ordem exterior à própria consciência humana. Podemos perguntar ainda: Há uma hierarquia de valores? Se houver, o bem supremo é a felicidade? É o prazer? É a atividade? É o dever? Por outro lado, é possível questionar: Os valores são essências? Têm conteúdo determinado, universal, válido em todos os tempos e lugares? Ou, ao contrário, são relativos? Ou, ainda, haveria possibilidade de superação das duas posições contraditórias do universalismo e do relativismo? As respostas a essas e outras questões nos darão as diversas concepções de vida moral elaboradas pelos filósofos através dos tempos.

 

Se quisermos ter uma visão ampla podemos tomar em consideração o conceito sintetizado por Vasquez (2005), para o qual, a ética é a “ciência do comportamento humano baseada na luz da razão e que parte de um tipo de factos, visando descobrir-lhes os princípios gerais duma forma racional.” Ou ainda, a ética é um conjunto sistemático de conhecimentos racionais e objectivos relacionados com o comportamento moral do homem. A ética corresponde a princípios gerais e universais que regem os povos, sendo assim, a parte crítica da moral (VASQUEZ, 2005: 115).