Apontamentos Técnicas Construtivas

Técnicas Construtivas

A reconstrução da Baixa levantou diversos problemas construtivos, não só ligados à grandiosidade da obra, como à necessária rapidez de execução e, acima de tudo, à viabilidade perante novas situações de risco.

Tendo em vista ultrapassar estes problemas, os arquitectos e o Eng.o Manuel da Maia implementaram um processo construtivo completamente novo, focando diversos aspectos que até então não tinham sido tratados, como a estabilidade dos edifícios perante às acções sísmicas, a segurança contra incêndio dos mesmos e a standartização dos elementos construtivos, tendo em vista a economia e rapidez da construção.

As fundações

A Baixa Pombalina está situada sobre um antigo braço do Tejo, sendo o seu terreno de natureza aluvionar, razão pela qual esta parte da cidade foi mais afectada pelo sismo de 1755.

De acordo com as sondagens geológicas realizados pelos trabalhos do Metropolitano de Lisboa, Brazão Farinha (1995), esses aluviões são de natureza argilo-arenosa.

Possuem intercalações de argila, areias ou saibros, existindo também calhaus rolados, fragmentos cerâmicos e blocos de alvenaria.

O “bed-rock” é formado por camadas de argilas magras, calcários e areias, com ou sem calhaus rolados.

Os entulhos usados nos aterros para regularizar o esteiro, formam uma camada superficial reduzida, heterogénea.

A espessura dos aterros e aluviões ronda os 30.0 m de profundidade em algumas zonas. O nível freático é elevado e encontra-se a 3.5 m de profundidade.

Os alicerces dos edifícios são de alvenaria de pedra e com arcos para conduzir melhor as cargas a transmitir ao solo.

A transmissão ao solo é efectuada através de um sistema de grades de madeira constituídas por longarinas e travessas circulares, com cerca de 15.0 cm de diâmetro.

Estas são ligadas entre si por intermédio de cavilhas de ferro forjado e apoiadas directamente num conjunto de estacas de madeira de pinho, com 15.0 a 18.0 cm de diâmetro, com cerca de 1.5 m de comprimento e afastadas 40.0 cm entre si, cravadas em verde no solo.

A cravação das estacas é feita por intermédio de um maço ou com um engenho apropriado denominado macaco ou bugio.

A Estrutura Resistente

Todos os edifícios Pombalinos eram construídos em bloco, com a existência de um ou mais saguões centrais para recolha das águas pluviais.

As paredes exteriores eram construídas em alvenaria de pedra rebocada e ligadas a uma estrutura interior de madeira em carvalho ou azinho, que lhes conferia maior rigidez.

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A ligação entre estes dois elementos era feita por intermédio de peças metálicas pregadas no gradeamento de madeira e chumbadas nas juntas da parede exterior.

As peças de madeira que faziam parte do gradeamento são designadas por mãos e ficavam embebidas na parede de alvenaria.

Estas paredes, em média, tinham uma espessura de 0.9 m no r/c, que diminuía com a elevação do edifício.

Também existiam paredes meeiras perpendiculares às paredes exteriores, com cerca de 0.5 m de espessura, sem qualquer abertura, em alvenaria de pedra rebocada, desde o rés do chão até saírem acima dos telhados.

Estas tinham não só a finalidade de dividir os edifícios, mas também de constituírem elementos corta-fogo.

Toda a estrutura do r/c era construída em pedra. Para além das paredes exteriores existiam abóbadas de berço cuidadosamente trabalhadas em cantaria ou abóbadas de aresta executadas em alvenaria de tijoleira, mas apoiadas em paredes, arcos ou pilares em cantaria de pedra.

Além deste sistema proporcionar maior ductilidade à estrutura na sua base, coexistia a função de elemento corta-fogo, caso deflagrasse algum incêndio nas lojas.

A parte superior das abóbadas era preenchida com material de enchimento que restava dos escombros do terramoto, com a finalidade de tornar a sua superfície horizontal.

O Novo Sistema Anti-sísmico

A partir do r/c existiam três tipos de paredes: as de alvenaria de pedra rebocada; as de frontal pombalino, também designadas por gaiolas, formadas por uma treliça de madeira preenchida com elementos cerâmicos e rebocada; e por último as paredes de tabique.

A introdução das paredes em frontal pombalino pretendia conferir aos edifícios a capacidade resistente necessária para dissiparem toda a energia transmitida pelas acções horizontais, sem que sofressem estragos consideráveis na totalidade da sua estrutura.

A invenção deste sistema de paredes resistentes não está historicamente comprovada, mas atribui-se a sua origem ao colaborador directo de Manuel da Maia, o engenheiro e arquitecto militar Carlos Mardel, França (1987).

Mardel mandou construir, no Terreiro do Paço, um estrado de madeira onde ergueu um edifício com o novo sistema construtivo, à escala real.

De seguida ordenou que um destacamento militar marchasse descontroladamente em cima do estrado com a finalidade de simular a aceleração sísmica transmitida às estruturas, para verificar e comprovar, ao olhos de todos, a viabilidade do sistema.

As gaiolas são dispostas segundo direcções ortogonais fazendo, juntamente com as paredes de tabique, a divisão dos compartimentos interiores.

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Além disso, conferem um travamento vertical que, conjuntamente com o respectivo travamento horizontal das estruturas de madeira dos pisos, proporcionam à estrutura maior rigidez.

A ligação das estruturas de madeira dos pisos às paredes mestras, era realizada por intermédio de elementos metálicos.

As triangulações de madeira nas paredes em frontal pombalino são em forma de cruz de S.to André, que posteriormente seriam preenchidas com uma argamassa constituída por cal, pequenas pedras e elementos cerâmicos provenientes dos escombros.

Por último as paredes eram rebocadas e estucadas em ambas as faces.

As Fases de Construção dos Edifícios

Os edifícios eram construídos num sistema de grupos de trabalho rotativo, conforme o tipo de especialidade.

O primeiro grupo era formado pelos cabouqueiros, encarregues de executar a abertura dos caboucos, bem como a cravação das estacas, das longarinas e travessas das fundações. Seguia-se a vez dos pedreiros para executarem o massame da base, a construção dos alicerces e de todas as paredes de alvenaria e cantaria de pedra do primeiro piso.

Chegava a vez dos carpinteiros, chefiados pelos mestres da casa Risco, que eram especialistas em estruturas de navios, procederem à execução da superestrutura de madeira correspondente a cada andar, em alternância com o grupo dos pedreiros, que executava as paredes de alvenaria.

Efeitos no Decorrer dos Tempos nos Edifícios Pombalinos

A construção original dos edifícios pombalinos era de excelente qualidade para a época, do ponto de vista estrutural, arquitectónico e de salubridade pública, mostrando ser uma obra da vanguarda da engenharia.

Focando agora apenas as características estruturais e distintas de qualquer outra estrutura, as estruturas pombalinas sofreram, com o decorrer dos anos, inúmeras transformações que, provavelmente, resultaram na diminuição da sua rigidez inicial, com efeitos negativos na sua capacidade de dissipar a energia transmitida pelos sismos.

A remoção de partes dos edifícios, o consequente aumento de carga em serviço e a introdução de novos materiais como o aço e o betão armado, veio transformar completamente os sistemas estruturais iniciais, com possíveis efeitos negativos.

Pensa-se que 80% dos edifícios da Baixa têm ainda uma parte significativa da sua estrutura original, que permaneceu intacta até aos nossos dias, Cóias e Silva (1999).

Contudo, o levantamento exaustivo do quarteirão em estudo, permitirá comprovar que esta estimativa é localmente, e numa amostra demasiado pequena, excessivamente optimista.

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