Apontamentos O objeto de estudo da Semântica e da Pragmática

O objeto de estudo da Semântica e da Pragmática

Vamos retomar algumas noções que foram estudadas no curso de Introdução aos Estudos Linguísticos, quando vocês foram apresentados ao pensamento de Saussure.

Para Saussure, o objeto de estudo da Lingüística é o signo lingüístico. O signo lingüístico é uma associação de um conceito, chamado significado, a uma imagem acústica (ou ótica), chamada significante.

Estão lembrados? Tanto o significado, quanto o significante são entidades abstratas que existem na mente dos falantes de uma determinada língua.

Significado e significante são, portanto, entidades mentais. Usamos os signos para falar sobre coisas no mundo (entre outras coisas!).

Por isso, temos a palavra (signo) ‘mesa’ para falar sobre esta mesa à qual estamos sentados para escrever este texto. Mas isso não quer dizer que o significado do signo ‘mesa’ deve ser identificado com esta mesa no mundo sobre a qual falamos. E nem que o significante de ‘mesa’ deve ser identificado com os sons (ou gestos) que usamos para pronunciar a palavra.

O significado não é a mesa (o objeto físico) em si, mas a representação mental que temos do objeto. Do mesmo modo, o significante desse signo não é o som [mezå], mas a representação mental que os falantes de português fazem desses sons, que os ajuda a reconhecer o signo ‘mesa’ quando ele é pronunciado, e a saber como o signo deve ser pronunciado.

O que é importante é que o signo estabelece uma relação simbólica entre um significado e um significante. O que isso quer dizer? Quer dizer que, quando pronunciamos a seqüência fonológica /meza/, necessariamente designamos o conceito [MESA]. O signo é isso: uma relação simbólica inseparável entre significado e significante.

E já que a língua é um sistema de signos, isso significa que a língua é simbólica. Cada vez que pronunciamos ou sinalizamos palavras, sentenças ou discursos inteiros, estamos designando conceitos.

Como vocês já viram em cursos anteriores, a Fonologia é a área da Lingüística que estuda o significante. E quais áreas da Linguística estudam o significado?

São justamente a Semântica e a Pragmática. Ou seja, a Semântica e a Pragmática estudam os conceitos que construímos em nossas mentes quando estamos diante de um signo linguístico, seja ele uma palavra, uma sentença, ou um texto. Assim, por exemplo, sabemos que o conceito associado a palavras como ‘calvo’ e ‘careca’, nas sentenças (1) e (2), são iguais:

(1) O João começou a ficar calvo aos 30 anos.

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(2) O João começou a ficar careca aos 30 anos.

Ou seja, tanto o uso da palavra ‘calvo’, quanto o uso da palavra ‘careca’, nas sentenças acima, nos levam ao conceito relativo à propriedade que alguém tem de não ter cabelo.

Da mesma maneira, o conceito que formamos quando ouvimos uma sentença como (3) é semelhante ao conceito que formamos quando ouvimos uma sentença como (4):

(3) A Maria ainda acredita que o Pedro ganhou na loteria.

(4) A Maria continua achando que o Pedro ganhou na loteria.

Vamos considerar, agora, uma sentença como a seguinte:

(5) A porta está aberta.

Qual é o conceito que formamos quando ouvimos uma sentença como essa, fora de contexto? Em termos bem intuitivos, formamos o conceito de um objeto físico que serve para marcar o ponto de entrada ou saída de uma sala, e o de que esse objeto físico não está obstruindo nem a entrada, nem a saída de ninguém dessa sala.

Mas, agora, pensem na seguinte situação. Um professor está dando aula e um grupo de alunos está fazendo a maior bagunça, conversando sem parar, e não prestando atenção à matéria que está sendo ensinada (você nunca viu isso, não é?). O professor dá uma bronca nos alunos e pede para eles ficarem quietos.

Entretanto, depois de alguns minutos, eles continuam a conversar e a perturbar a aula. Desta vez, o professor pára a aula, chama o nome dos alunos que estão fazendo bagunça e diz: ‘A porta está aberta!’ Qual é o significado dessa sentença nesse contexto? Parece ser bem diferente daquele conceito que formamos sobre a sentença (5), não é? Nesse contexto, a sentença ‘A porta está aberta’ é entendida como um pedido aos alunos para que se retirem da sala.

Vamos pensar agora em um outro contexto. O professor está dando aula, a porta da sala está aberta, e alguém pára do lado de fora da sala, com ar de curiosidade e interesse. O professor, em uma atitude bem simpática, se dirige a essa pessoa e diz: ‘A  porta está aberta’ (provavelmente acompanhado de um gesto). Será que o significado dessa sentença se mantém igual ao significado formado no contexto anterior? Certamente não!

Desta vez, o professor não está pedindo à pessoa que se retire de lá. Desta vez, o professor está convidando a pessoa a entrar e a assistir à sua aula. Podemos multiplicar esses exemplos.

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Imaginemos o mesmo professor tentando dar aula, com muito barulho vindo do lado de fora. Muita gente no corredor está falando alto. Ele vira para uma aluna sentada do lado da porta e diz, baixo: ‘A porta está aberta.’ Nesse caso, qual é o significado da sentença? Podemos perceber qual é, quando a aluna levanta e fecha a porta! Foi um pedido de fechar a porta.

Vejam, então, como o contexto de uso dos signos lingüísticos influi na construção de seu significado.

Algumas correntes teóricas fazem uma separação entre o estudo do significado das expressões linguísticas analisado fora de contextos de uso (como fizemos quando apresentamos a sentença (5)), e o estudo do significado das expressões em situações de uso (como fizemos quando apresentamos os três contextos de sala de aula, acima).

As teorias que fazem essa divisão consideram que o estudo do significado linguístico com base apenas no sistema da língua — fora de contexto de uso — é o objeto específico de estudo da Semântica. Diferentemente, o estudo do significado das expressões linguísticas em contextos de fala é o objeto específico da Pragmática.

Para essas teorias, a análise da sentença A porta está aberta que descreve seu significado como sendo o de um objeto físico que não está obstruindo a entrada ou saída de uma sala é parte da Semântica. Já a análise da conceitualização formada pelo uso dessa sentença nos contextos de sala de aula descritos acima é parte da Pragmática.

Entretanto, algumas outras correntes teóricas não aceitam a divisão tão rígida entre o âmbito de estudo da Semântica, de um lado, e da Pragmática, de outro.

Para essas outras correntes, a construção de todas as conceitualizações que fazemos está associada a nossa experiência no mundo, e sempre depende, em maior ou menor grau, do contexto de fala. A divisão entre estudos semânticos e estudos pragmáticos, para essas teorias, é apenas uma divisão didática.

Neste curso, nós vamos seguir essas correntes que consideram que o objeto de estudo da Semântica e da Pragmática é o mesmo: os conceitos e a conceitualização. No item seguinte, vamos entender o que é esse objeto de estudo.

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