Apontamentos O conceito de palavra no estruturalismo

O conceito de palavra no estruturalismo

A questão da definição e estatuto da palavra passa a ter mais peso no estruturalismo americano, dada a primazia do morfema como unidade morfológica.

É de se observar, no entanto, que esta proposição deve ser considerada como consequência, e não causa, do abandono do princípio da palavra como elemento mínimo da análise linguística, uma vez que este abandono já havia sido efetuado, em termos concretos, pela prática do método comparativo.

O deslocamento da palavra do centro da língua para uma área cinzenta, assim como a eleição do morfema como elemento básico da morfologia não são propriamente invenções do estruturalismo, como se poderia pensar, mas aplicações do princípio sincrônico sobre uma situação de facto legada pelo período do estudo histórico de línguas.

Mais especificamente, depois de um século de análises baseadas no desmembramento da palavra e focalização em suas partes constituintes, a palavra monolítica estava definitivamente enterrada.

Por outro lado, o princípio estruturalista e a concentração na descrição de línguas clamavam por critérios de classificação; a emergência do morfema é, neste contexto, praticamente inevitável.

Além disso, também a língua escrita foi para segundo plano no estruturalismo, passando-se a considerar a cadeia fônica como base da análise linguística, sobretudo no estruturalismo americano, concentrado fundamentalmente na descrição de línguas indígenas desconhecidas, ou seja, línguas cujas unidades lexicais relevantes o linguista ignorava.

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Surge, portanto, não apenas uma questão teórica, mas uma dificuldade metodológica: que unidades deverão ser consideradas palavras, a partir de que critérios, como definir e justificar as marcas pertinentes.

A célebre definição de Bloomfield, de base distribucionalista, é uma tentativa relativamente bem sucedida de resolver ao mesmo tempo os problemas teórico e metodológico.

Mas, no estruturalismo descritivo, o pilar do modelo clássico de descrição gramatical já havia sido desfeito, de sorte que os limites da palavra passaram a constituir um problema, e seu estatuto como unidade linguística passou a ser questionado.

É de se observar que as grandes dificuldades em relação à definição de palavra no estruturalismo americano, tanto em termos de fixarmos seus limites, quanto em relação a estabelecermos seu estatuto na estrutura linguística, embora legada a situação problemática pelos desenvolvimentos da linguística no século XIX, é inerente à problemática da Linguística Americana na época, dado o descritivismo impulsionado pela necessidade de descrição das línguas indígenas americanas, por um lado, e, por outro, dada a interpretação de estrutura como ‘estrutura do enunciado’ por Bloomfield, em oposição ao estruturalismo sistêmico mentalista de Saussure.

De facto, o estruturalismo europeu não apresenta os problemas com que se depara Bloomfield porque os europeus não têm línguas indígenas a descrever e Saussure está interessado na faculdade de linguagem e na língua como um depósito de signos, no “tesouro depositado na mente dos falantes”, este tesouro que é um facto social.

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Assim, Saussure preocupa-se com a questão da oposição e do sistema de valores; sua unidade básica é o signo. Claro, tanto palavras quanto morfemas são signos; o problema da definição da palavra permanece, mas não é uma questão crucial e urgente para o estruturalismo europeu, que está preocupado com as relações entre os signos na mente dos falantes e não com as relações em presença que se manifestam na fala.

Esta diferença se reflete nos focos privilegiados pelos dois grandes nomes-símbolo do estruturalismo linguístico.

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