Apontamentos Identificação e solução das anomalias existentes

Identificação e solução das anomalias existentes

O que é considerado anomalias por uns, pode representar vestígios do tempo para outros. A tendência de encontrar muitos “defeitos”, torna-se facilmente num obstáculo, no que respeita a reduzir as intervenções ao mínimo.

Elementos exteriores

As Paredes exteriores são normalmente constituídas por materiais diversos e com características especificas. A pedra, o tijolo, a madeira, o vidro e o ferro (e outros metais), são os materiais predominantes assim como os respectivos revestimentos, tais como o azulejo, o reboco e a tinta. Não esquecendo que, dentro de cada categoria de materiais, a qualidade, proveniência e características, podem diferir como o dia e a noite. O granito e o calcário, o pinho e o carvalho, a tinta de cal e a de óleo são só alguns exemplos. Trata-se, pois, de executar uma identificação correcta dos materiais existentes, o que nos permitirá mais facilmente distinguir as anomalias dos vestígios do tempo, e aplicar as soluções correctas.

A pedra e o tijolo são, em conjunto com uma argamassa, os elementos constituintes de uma alvenaria e exercem, pois, uma função estrutural importante. As anomalias existentes devem ser identificadas por profissionais com a devida competência. Qualquer intervenção deverá ser executada com materiais similares. Uma nota importante é a constituição da argamassa e dos seus elementos. Se a argamassa original é de cal, pois deverá a intervenção ser executada com uma similar, tanto na constituição como na proporção e granulometria. O uso, por exemplo, do cimento Portland nestas situações é totalmente incorrecto, desnecessário e muitas vezes desastroso. Normalmente, as alvenarias são rebocadas e, infelizmente, os rebocos antigos tendem a ser substituídos na sua totalidade. Esta situação é de se evitar, e deve-se tentar substituir somente as partes realmente degradadas. Naturalmente que a constituição da argamassa de reboco deverá seguir os mesmos critérios acima mencionados, e ter-se ainda atenção às suas eventuais texturas e acabamentos. Os rebocos “antigos” são sempre executados com várias camadas finas, sobrepostas e com os devidos cuidados de humidificação durante todo o trabalho. Uma eventual pintura antiga exterior não deve ser repintada se não existir necessidade de tal. O que seja pintado de novo, deverá ser executado com o mesmo tipo de tinta (ligante e pigmentos).

A pedra natural surge bastante, em edifícios antigos, como moldura de janelas e portas, em ornamentos, pórticos, varandas, etc. A pedra e o seu estado de preservação deve sempre ser avaliada por profissionais com experiência, já que as soluções requerem normalmente métodos especiais. No caso em que partes estejam totalmente degradadas, a pedra deverá ser substituída parcialmente. Aqui há pois que definir qualidade e origem, e não é sempre fácil de encontrar a mesma ou similar. Um pequeno alerta sobre os acabamentos que possam existir e que, normalmente, foram executados manualmente; estes devem sempre ser respeitados e repetidos nas partes substituídas. Métodos de limpeza à base de abrasivos podem ser nocivos, pois muitos deles causam danos, deixando a pedra “branquinha” mas esburacada, o que vai acelerar uma nova deposição de partículas de sujidade no objecto. Muitos trabalhos de pedra são “limpos” brutalmente, sem existir qualquer necessidade prévia que justifique essa ou outras intervenções. Finalmente nunca esquecer de refechar as juntas existentes com uma argamassa adequada.

O ferro em partes exteriores encontra-se normalmente em varandas e marquises. Por vezes é necessário recorrer à sua substituição mas, normalmente, trata-se apenas de problemas superficiais de óxido. A pintura do ferro deverá ser executada (depois dos óxidos serem removidos) com tintas de óleo, sendo a primeira camada de tinta protectora (com conteúdo de chumbo).

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A madeira no exterior encontra-se nas janelas, caixilhos, portas e em alguns casos nos suportes de telhado sobressaído. A substituição total de janelas e portas, é uma praga que se tem vindo a alastrar nas últimas décadas. Não somente se deitam para o lixo excelentes valores materiais, sendo os mesmos ao mesmo tempo substituídos por aberrações metálicas ou plásticas, absolutamente incompatíveis e isentas de estética. Uma boa janela ou porta pode sempre ser remendada por um carpinteiro que saiba do seu oficio, substituindo partes podres ou degradadas. A madeira a usar deverá ser da mesma origem, bem seca, com alto teor de resinas naturais e proveniente de arvore de crescimento lento. Essas madeiras são difíceis de encontrar em serrações modernas, onde a qualidade do material, normalmente, é absolutamente deplorável, o que as leva, provavelmente, a apodrecer em poucos anos. As melhores madeiras para remendos, encontram-se (ironicamente) em demolições de edifícios antigos. A pintura das madeiras deverá sempre ser executada com tintas de óleo e nunca com tintas plásticas. A madeira de qualidade, com a devida e apropriada manutenção periódica, pode “sobreviver” centenas de anos. No caso em que alguns elementos necessitem ser substituídos na sua totalidade, deverão os mesmos ser executados com as mesmas dimensões, estilo, e materiais.

Os vidros antigos tem características diferentes dos modernos, devido a outros processos de fabricação e, também, dado o facto de o vidro não ser um material estável a longo prazo. Nunca substituir vidros antigos desnecessariamente. Nova massa de vidraceiro deverá sempre substituir a seca e fissurada, como prevenção contra as introduções de água.

Os revestimentos como o azulejo necessitam sempre de uma vistoria extensiva, pois muitos dos elementos podem estar em vias de destacamento. Esses devem ser previamente retirados, limpos, e colocados no seu lugar de origem com argamassa apropriada. No caso de faltarem azulejos devem-se fabricar novos, iguais aos originais. Como este processo normalmente é caro, pode-se fabricar um número superior para eventuais necessidades futuras.

As tintas para alvenarias ou rebocos deverão sempre ser similares à original (normalmente tintas de cal) e nunca substituídas por tintas plásticas ou outras. Algumas destas tintas são propicias a retenções de humidade, o que vai acelerar a degradação do substrato. As tintas plásticas não podem ser repintadas com outras tintas de ligante diferente. Isto implica que todas as camadas desse tipo de tinta têm que ser removidas, anteriormente à aplicação de outras. Num sistema poroso como o reboco isto significa, na prática, a remoção total da camada superficial do substrato. A “repetibilidade” é, pois, sempre de considerar e, nesse aspecto, as tintas de cal são absolutamente o que se encontra de melhor. A pintura de cal é sempre aplicada em camadas múltiplas e finas.

Cobertura

O telhado é o factor mais importante na defesa do edifício contra o meio ambiente.

As telhas originais são um elemento importantíssimo sob o ponto de vista estético. Um telhado substituído com telhas de outro formato, fabrico ou cor altera as características do objecto de uma maneira definitiva.

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Os trabalhos de manutenção devem sempre ser executados com o maior dos cuidados e, de preferência, só substituir as telhas partidas ou altamente degradadas.

Madeiras de suporte devem ser substituídas e protegidas quando necessário. A substituição de telhas em edifícios recentes tende a tornar-se problemática, pois muitas dessas já não se fabricam. Quando se substitui (por necessidade) um telhado inteiro deve-se, pois, adquirir sempre um número de telhas superior ao necessário, para prevenir estes problemas futuros.

A escolha de uma telha tradicional poderá, por estes motivos, ser vantajosa. No caso em que existam caleiras e tubos de queda, devem estes ser substituídos por similares (na forma e material) sempre que necessário.

Elementos interiores

As escadarias são sempre o “cartão de visita” de um edifício. Muitas vezes com trabalhos artísticos, estuques, painéis de azulejos, pinturas decorativas, ascensores da época, madeiras raras, mármores e pedras decorativas, portas e vidragens de qualidade, etc.

Os cuidados aqui devem ser sempre especiais e a execução dos trabalhos requer, muitas vezes, a competência de conservadores. A inclusão de materiais novos (desnecessária) e a destruição dos antigos, nestes ambientes, é uma ofensa a todos aqueles que, com conhecimento e devoção, nos deixaram tão belos testemunhos.

Os fogos devem seguir os mesmos critérios anteriormente mencionados, principalmente no que respeita a elementos tais como portas, pavimentos, azulejos, estuques, armários e pedras de cozinha, varandas, etc.

É, normalmente, aqui que tudo desaparece ou se transforma de uma maneira irreversível ao longo dos anos e que, muitas vezes, põe em causa a própria segurança estrutural dos edifícios.

A substituição das instalações técnicas é uma necessidade que implica intervenções maiores em diferentes estruturas.

Normalmente, é necessário abrir roços que, obviamente, vão ter que ser tapados. Em escadarias é de recomendar uma moderação e cuidado na intervenção, pois materiais eventualmente inutilizados, podem vir a ser impossíveis de encontrar no mercado.

Repor como estava antes, é prioridade do bom conservador, quando não existem outras alternativas de intervenção.

Por ultimo, deixo algumas considerações sobre uma boa obra de intervenção. O sucesso final depende, primeiro que tudo, do planeamento inicial.

A capacidade dos profissionais envolvidos neste processo é crucial e decisiva. No campo da execução surgem sempre problemas não previstos. Ou não se encontram os materiais, ou quem os saiba aplicar.

Saber executar um reboco de cimento, não implica saber implementar um outro com argamassas de cal. Pintar com tintas plásticas ou com outras baseadas em óleo de linhaça, é uma diferença significativa.

A recuperação de um edifício antigo requer muita paciência, moderação, vontade … e trabalho, porque as soluções podem ser simples e obvias mas, ao mesmo tempo, por razões já mencionadas, difíceis de implementar.

Last but not least um diálogo, ponderação e avaliação continua do que se fez, do que se faz e do que se vai fazer, e uma documentação extensiva e detalhada das soluções e materiais implementados.

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