O processo de miscigenação

O processo de miscigenação

No processo de formação do homem cabo-verdiano, a miscigenação aparece como factor fundamental.

Miscigenação é o cruzamento de raças humanas diferentes. Por outras palavras, a miscigenação é a consequência da união sexual entre pessoas com tipos rácicos diferentes. Desse processo, também chamado mestiçagem ou caldeamento, pode-se dizer que caracteriza a evolução do homem. O indivíduo resultante desse processo é designado de mestiço. Neste sentido, mestiços são pessoas que descendem de duas ou mais raças humanas diferentes, possuindo características de cada uma das “raças” de que descendem.

As grandes descobertas do século XV e o povoamento de novas terras consequentemente, levaram os europeus e, particularmente os portugueses, ao contacto com grupos étnicos de características antagónicas muito diferentes, que depressa deram origem a numerosos tipos bem individualizados.

No caso específico das ilhas de Cabo Verde, «achadas» desertas, o povoamento pôs em contacto dois elementos raciais e culturais diferentes: o branco e o negro, que de cruzaram desde a primeira hora. Em presença um do outro, sob pressão de factores vários, nomeadamente, a carência de mulheres brancas, a facilidade de relacionamento do português, as relações havidas entre homens brancos e mulheres negras, a orografia das ilhas e a mobilidade dos primeiros comerciantes, fundiram-se dando origem ao homem crioulo, cum uma língua de comunicação e uma cultura próprias (Mariano, 1959).

Os costumes quase patriarcais das famílias povoadoras, o influxo da religião que irmanava senhores e escravos, a solidariedade vivamente despertada ante o desconhecido e perante os frequentes ataques dos corsários, de um lado e de outro, a maviosidade e a dedicação extremas da raça cativa facilitaram extraordinariamente a sua assimilação (Pedro Cardoso, 1934).

Por outro lado, a história económica e social de Cabo Verde ~o regime latifundiário, aplicado em Santiago, e o regime minifundiário, aplicado nas outras ilhas – terá determinado as características da miscigenação que em parte definem a fisionomia própria do homem cabo-verdiano (João Lopes Filho, 1936).

O patriarcado de Santiago, com os característicos morgadios servidos por grandes propriedades, criou um tipo de civilização semelhante às zonas brasileiras de economia escravocrata à sombra das casas-grandes com engenhos, contudo, com menor compensação e reciprocidade entre as duas classes, os senhores, os brancos, e os escravos. Isso, segundo João Lopes (1936), terá determinado no homem de Santiago uma maior fidelidade às suas origens africanas e uma sobrevivência mais viva dos elementos sociais e folclóricos característicos do clima de servidão.

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No grupo de Barlavento, onde não vingou o tipo feudal-agrícola, existindo pequenas hortas-jardins pertencentes a gente modesta, sem grandes recursos para aquisição de vasta mão-de-obra escrava, transformaram-se todos, senhores e escravos, numa família. Daí ter tido lugar a miscigenação em grande escala, sendo que os filhos resultantes da união de senhores e escravos – os mulatos – viriam a constituir o recurso necessário de mão-de-obra para a lavoura (João Lopes Filho, 1936).

Os habitantes das ilhas cresceram rapidamente. Em 1582, nas duas ilhas povoadas, a população era de 15.708 sujeitos, sendo que 12.408 na ilha de Santiago e 2.300 na ilha do Fogo, população essa que, em 1730, passou para 40.000 (…), sendo 25.000 na ilha de Santiago e 12.000 na ilha do Fogo (Chelmicki e Varnhagen, 1841).

Segundo o censo de 1807, apesar da crise de 1773-1775, que provocara 22.000 mortos, a população aumentara para 58.431 habitantes, em que apenas 3% era constituído por brancos, sendo 41% mulatos e 55% pretos, entre escravos e forros.

Como foi referenciado anteriormente, a mestiçagem foi menos expressiva em Santiago do que nas restantes ilhas do arquipélago, como pudemos constatar pela análise do censo de 1950.

Nesse período Santiago possuía 88 brancos, correspondendo a 1,5% da população; 2193 mistos, correspondendo a 37,3%, e 36051 negros, correspondendo a 61,2% da população. Vejamos a seguinte tabela do boletim de propaganda e informação de 1962:

TABELA – Censo de 1950.

Ilha Branco % Misto % Negros %
B. Vista 21 0,7 2353 81,4 517 17,9
Brava 565 7,1 6815 86,2 523 6,6
Fogo 182 1,1 16209 97,0 314 1,9
Maio 2 0,1 1028 55,0 840 44,9
Sal 98 5,5 1637 91,8 49 2,7
Santiago 881 1,5 21931 37,3 36051 61,2
S. Antão 394 1,4 23787 85,6 3622 13,0
S.Nicolau 42 0,4 10174 98,7 89 0,9
S.Vicente 849 4,4 17792 93,1 470 2,5
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FONTE: BOLETIM DE PROPAGANDA N 148, ano 1962.

Embora se procurasse promover a população branca e houvesse o propósito expresso de contrariar o desenvolvimento das castas de mulatos que havia nas ilhas (…). Deu-se, inevitavelmente, a fusão entre os grupos raciais. Essa amalgamação decorreu sem sobressaltos nem violências, originando, por uma contínua miscigenação, um tipo humano específico e uma cultura crioula.

Manuel Brito Semedo

A construção da Identidade Nacional:

Análise da Imprensa entre 1877 e 1975.

A miscigenação em Cabo Verde

A fixação dos colonos, e dos africanos (escravos e homens livres) no arquipélago de Cabo Verde, permitiu que a estruturação social, económica e administrativa cabo-verdiana se tornasse uma realidade.

O processo de miscigenação, em Cabo Verde, terá começado com os primeiros contactos entre esses grupos étnicos através de uniões ilegítimas de brancos com negras, por causa da distância do arquipélago ao reino; das dificuldades de comunicação; da falta de mulheres brancas; da submissão e sedução das negras.

Como resultado desta miscigenação, surge o mestiço que passou a ser um importante elemento na divulgação e afirmação da identidade e cultural cabo-verdiana.

O mestiço passa, efectivamente, a desempenhar um papel de extrema importância na configuração social, política e económica em Cabo Verde (…). Com a ascensão gradual dos mestiços “filhos da terra,” quer na conjuntura política, quer na económica ou social, estes passam a adquirir cargos reconhecidos, tanto no âmbito literário, como no cultural. O mestiço passa a simbolizar a luta pela afirmação cultural e conquista de direitos na sociedade cabo-verdiana.

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