Formação da identidade cultural cabo-verdiana

Formação da identidade cultural cabo-verdiana

Identidade

Para António Perotti (1997), Identidade é a maneira como os indivíduos e os grupos se revêm e se definem nas suas semelhanças e diferenças relativamente a outros indivíduos e grupos.

Este autor salienta que, o termo, quando aplicado ao indivíduo, encerra dois sentidos. O primeiro diz respeito ao «conceito de identidade», que tem sobretudo um significado de ordem psicológica. A identidade liga-se, assim, à percepção que cada indivíduo tem de si próprio, isto é, da sua própria consciência enquanto pessoa na relação com outros indivíduos, com os quais forma um grupo social (a família, as associações, a sua própria nação).

Esta percepção de identidade não existe sem o reconhecimento recíproco entre o indivíduo e a sociedade, o segundo sentido. Assim, a identidade comporta um aspecto subjectivo (a percepção da autoidentificação e da continuidade da própria existência do indivíduo no tempo e no espaço) e um aspecto relacional e colectivo (a percepção de que os outros lhe reconhecem essa identificação e continuidade).

Identidade cultural

A identidade cultural refere-se ao patrimônio histórico-cultural de um grupo ou de uma sociedade que a singulariza, diferenciando-o de outros grupos ou sociedades. O património cultural compõe-se de todos os elementos culturais produzidos por um povo: suas artes, sua literatura, sua filosofia, seus costumes, seus monumentos, arquitetura etc., bem como as produções de ordem coletiva e de natureza imaterial como as tradições orais, a medicina tradicional, os contos populares e demais narrativas que compõem a memória coletiva. Vincula-se à identidade cultural a memória histórica desses grupos ou sociedades em constante contato cultural com outros grupos e sociedades e com suas respectivas culturas que dinamizam o seu processo de crescimento e de desenvolvimento. Sendo assim, a preservação do patrimônio cultural de um povo preserva seus vínculos e a memória em relação ao seu passado, contribuindo para a afirmação e promoção de sua identidade cultural.

Como sabemos, a cultura não é algo estanque, isolado, ela está em constante  transformação, por influxos internos e por influxos externos – no seu relacionamento  com outras culturas (LARAIA, 1999, p. 100), de modo que a identidade cultural  também sofre mudanças, já que reflete a cultura.

Stuart Hall também destaca o caráter não fixo da identidade cultural, sendo que ela está em constante processo em razão das interações socioculturais e do intercâmbio económico e cultural no mundo globalizado. Para ele, a identidade é continuamente formada e transformada em relação às formas com que somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam e “o próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se provisório” (HALL, 2006, p. 13). No mundo moderno, as culturas nacionais se constituem em uma das principais fontes da identidade cultural que, todavia, está exposta a constantes mudanças, já que não são impermeáveis. Para o teórico, a globalização está deslocando as identidades nacionais, em algumas vezes até começa a apaga-las. Explica Stuart Hall: […] à medida em que as culturas nacionais tornam-se mais expostas a influências externas, é difícil conservar as identidades culturais intactas ou impedir que elas se tornem enfraquecidas através do bombardeamento e da infiltração cultural (HALL, 2006, p. 74).

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Formação da identidade cultural cabo-verdiana

A colonização de Cabo Verde teve características diferentes da das outras colónias africanas, uma vez que os descobridores oficiais do arquipélago dão-no como desabitado por altura da chegada em 1460. Criando as condições, o povoamento processa-se coabitando no mesmo espaço pessoas de continentes diferentes, culturalmente distintas.

Também, durante muito tempo, devido à sua posição geoestratégica, Cabo Verde vai permitir o cruzamento das grandes rotas do comércio triangular e do tráfico de escravos, possibilitando contactos de diversos povos com culturas diferentes.

Os escravos ao serem trazidos para Cabo Verde eram usados como moedas de troca e no povoamento das ilhas. Desta forma haverá aculturações devido ao cruzamento da cultura europeia com a das diversas etnias africanas.

Coabitando no mesmo espaço surge a necessidade de integração e de comunicação para uma convivência sã, privando vários grupos de alguns hábitos o que desemboca num choque de culturas. Desse choque cultural nasce um conjunto de manifestações distintas e típicas que posteriormente deram origem à Cultura Cabo-Verdiana.

Apesar de cada grupo tentar preservar a sua cultura vai haver alienações motivadas pela forma como se deu o povoamento e pelo próprio espaço físico. Devido ao referido anteriormente, muitas práticas tanto europeias como africanas, tornam-se de difícil realização por estarem longe do seu ambiente. Por exemplo os portugueses tinham os seus próprios hábitos alimentares, e mesmo que mandassem vir os alimentos do reino quem os preparavam eram as mulheres africanas, à moda delas. Mesmo que o branco se revoltasse era obrigado a adaptar-se.

Apesar de haver essa convivência cultural, o grupo menos coercivo vai ser os africanos, uma vez que eram constituídos por grupos de etnias diferentes (Jalofos, Mendingas, Balantas, Beafares, Bijagós, etc), espalhados por várias localidades, perdendo assim a ligação com o seu ambiente, e consequentemente os seus hábitos e costumes. Para eles era uma perda da identidade, visto que estando longe e em número reduzido seria difícil uma resistência para manter viva as suas tradições culturais.

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A identidade cabo-verdiana efectivou-se num processo de mestiçagem. Essa mestiçagem foi devido a quase inexistência de mulheres europeias nas ilhas, fazendo com que os brancos se envolvessem com as negras dando origem a indivíduos que não eram nem europeus, nem africanos, mas sim mestiços.

Nos séculos XVI e XVIII nota-se uma afluência dos colonos das ilhas para os rios da Guiné em serviço dos interesses económicos da metrópole, permitindo a ascensão social dos mestiços. Isto provoca uma diminuição de choques entre as duas comunidades, até que pouco a pouco, os poucos brancos foram crioulizando-se, assimilando os hábitos e comportamentos do africano.

Segundo Dulce Almada “o facto de não termos sido uma colónia de povoamento, mas um entreposto de escravos não permitiu uma concentração muito grande de escravos da mesma etnia nas ilhas. Daí que o continente africano não tenha deixado aqui esse”apport” cultural maciço e palpável (…). Da mesma forma tão pouco a cultura portuguesa pode marcar entre nós uma presença suficientemente forte para se impor à sociedade como padrão.”

Podemos concluir das palavras de Dulce Almada que a cultura Cabo-verdiana formou-se da fusão da cultura africana com a europeia.

O africano e o europeu foram obrigados a viver juntos na condição de escravo e senhor, em que aquele trabalha para enriquecer este, que o explora.

Neste sentido eram necessárias cedências para tornar possível a sobrevivência do escravo e permanência do colono. Assim, pouco à pouco, cada elemento ia integrando na cultura do outro.

No cruzamento dessas culturas diferentes, nasce o mestiço que ao deparar com as diferenças dos seus progenitores – a europeia do pai e a africana da mãe – é obrigado a criar uma identidade cultural própria, a cultura crioula, que se caracteriza essencialmente por um sentimento de diferença.

A individualização cultural ou a identidade do homem cabo-verdiano, muito cedo definida, adveio desta sua mista realidade – a africana e a europeia (…).

A expressão do espírito do homem cabo-verdiano, a identidade e a especificidade da sua cultura, em suma, a sua crioulidade, é visível na língua cabo-verdiana, na manifestação da cultura popular (literatura oral, música, festas tradicionais, etc.) e nas suas formas cultas de literatura.

É necessário realçar que devido aos processos utilizados no povoamento e a condicionalismos vários, as diferentes ilhas desenvolveram características culturais diferenciadas, paralelamente à consolidação de uma identidade fundada em raízes culturais comuns.

Com base em todos os elementos referidos, desenvolveu-se uma cultura própria de Cabo Verde, que se manifesta em vários domínios, permitindo a sua identificação e diferenciação em relação a outras culturas.

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