A Cientificação da História

A Cientificação da História

O conceito da História é multidimensional. Segundo Marc Bloch (1886-1944), a História é uma Ciência dos Homens no Tempo e no Espaço. Para ele a História estuda o Homem em sociedade o que tem levado a alguns pensadores a elucidarem a um direito a História como um estudo das sociedades humanas, pois segundo estes, a História não estuda quaisquer sociedades, mas estuda sociedades humanas.

Para Lucien Febvre, retomando as ideias de Bloch, segundo as quais a História é a ciência dos homens, ele considera a História como a Ciência da mudança perpétua das sociedades humanas, o seu perpétuo é necessário reajustamento às novas condições de existência material, política, moral, religiosa e intelectual.

Concluindo, podemos definir a História como a Ciência que estuda a vida dos Homens na sua relação espácio-temporal ou seja ciência que estuda a vida do Homem no tempo e espaço.

Para alguns historiadores, a História não pode ser concebida como ciência, pois segundo estes, ela não tem um carácter de determinação absoluta da causalidade. Para Paul Veyhe, por exemplo, a História não passa de um romance verdadeiro. Será que esta concepção está correcta?

Não, a relutância destes autores que não concebem a História como ciência advêm no seguinte facto: tomaram como paradigma, no critério das ciências da natureza, também por vezes ditas ciências exactas como padrão das ciências, o que de facto é errado.

A história não pode ser logicamente como as ciências exactas. Mas partindo do princípio de que esta tem o objecto de estudo, métodos próprios e vai em busca de uma determinada objectividade, então ela é ciência.

No dizer de Marc Bloch os Homens por quanto sintetizam as sociedades humanas, agrupamentos em convívio, no processo evolutivo ou fases, porque o homem passou até a fase actual. Para ele, o Tempo que por excelência constitui o objecto de estudo da História é o passado. No dizer de Collingwood, o objecto de estudo da História é: resgatar as acções humanas praticadas no passado, isto é, a História é a ciência de resgatar, a tentativa de responder as perguntas sobre acções humanas praticadas no passado.

Concluindo, pode-se afirmar que o objecto de estudo da História é pois o conhecimento do passado dos homens, tal como este é apreendido, transformado e representado pelo Historiador, nesta perspectiva o objecto da História é uma construção, uma representação do sujeito que conhece.

Fontes Históricas

É obviamente impossível a abordagem directa do passado. O historiador recorre indiferentemente a toda a sorte de vestígios desde que de qualquer modo vinculem informação acerca do passado e possam ser considerados fontes históricas de conhecimento deste.

Conceito

Podemos definir fontes como sendo tudo aquilo que o Historiador utiliza para reconstituir o passado de uma comunidade. As fontes servem de intermediário entre o passado e a época do historiador, ou por outra as fontes são o espelho da verdade histórica, segundo Piere Salman. Assim entendidas, as fontes históricas podem ser dívidas em três tipos a saber: orais, materiais ou arqueológicas e escritas.

As fontes materiais ou arqueológicas são actualmente bastante válidas graças a técnica da datação pelo carbono 14.

Fontes epigráficas são aquelas que se encontram gravadas em materiais duros como pedra, bronze, cerâmica, etc. São geralmente textos curtos e com fins comemorativos ou funerários.

Fontes orais são informações transmitidas de geração em geração por via oral. Fazem parte deste grupo as genealogias, tradição oral, recordações, entrevistas, depoimentos, etc. Frequentemente único meio de descrever a história imediata e clandestina, muito importante no referente a sociedades atrasadas ou rurais onde a população total ou predominante são analfabetos.

As fontes podem ser deformador da verdade histórica, no caso de documento histórico, porque depende do passado que o produziu, que o conservou ou deteriorou, como do engenho e capacidade do historiador. O historiador homem do presente, selecciona as fontes segundo o seu ponto de vista e não raras vezes a visão do passado está sempre condicionada a experiência do presente, daí a necessidade de submeter as fontes a uma crítica histórica.

Métodos de Estudo da História

Tal como outras ciências, a História apresenta o seu método de estudo como vista a aprender o objecto. Para se tornar ciência e se reconhecer como tal, ela teve que passar pela elaboração de métodos que fossem universais e os passos por ela seguidos fossem aceites pelos demais historiadores. Este método é chamado de crítica histórica.

A Crítica Histórica é segundo A. Da Silvarego a etapa da Ciência Histórica que tem por finalidade determinar o valor dos documentos e dos seus testemunhos. Por outras palavras, a Crítica Histórica é a operação cuja finalidade é a depuração das fontes a fim de que o Historiador possa delas se basear para o conhecimento do passado humano. A crítica Histórica compreende duas operações fundamentais a saber: uma de análise e a outra de síntese.

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A Análise Histórica é a fase de investigação histórica que abrange a recolha, ordenação e avaliação dos documentos históricos. A análise histórica compreende por sua vez quatro operações distintas a saber: A Heurística; a Crítica Externa ou de autenticidade; a Crítica interna ou de Credibilidade e a Hermenêutica.

  • A Heurística: é a operação pela qual se procede a recolha das fontes de informação necessárias á análise histórica. Como qualquer outro acto, a análise histórica pressupõe um sujeito e um objecto. Ao escolher o objecto da sua análise, já o sujeito deve ter acerca do mesmo, um conhecimento de nível correspondente ao anteriormente atingido pela investigação. Por outras palavras, o investigador deve partir daquilo que já é sabido para aquilo que se desconhece.

Foi no século XVII com o triunfo da dúvida metódica sobre a credulidade ingénua e sobre a dúvida sistemática que nasce a crítica histórica. A partir daí, as fontes escritas passaram a ser submetidas a dois tipos de crítica: crítica externa e crítica interna, destinadas a averiguar a autenticidade e a credibilidade dos documentos escritos.

  • A crítica externa ou de autenticidade: dirige-se aos aspectos materiais e formais do texto. Nessa modalidade ela procura responder as seguintes questões: trata-se de um documento original ou de uma cópia? É um documento fiel ou apresenta falsidades? É um documento falso? Ela compreende duas operações principais:

A crítica de proveniência que procura responder questões como: quem redigiu o documento, quando, onde e como foi ele redigido, e finalmente que vias percorreu antes de chegar as nossas mãos.

A crítica de restituição: consiste na restituição do documento á sua forma original, mediante a eliminação das alterações nela introduzidas pelos copistas.

Crítica interna ou de credibilidade: dirige-se ao conteúdo do texto. O historiador faz a triagem entre o verdadeiro e o que não se pode considerar como tal. A crítica interna analisa o conteúdo do trabalho do autor e compreende as cinco (5) operações a saber:

      • Crítica interna de interpretação literária do texto: tem a finalidade de averiguar o exacto sentido do pensamento do autor, isto é, não só aquilo que efectivamente diz, mas aquilo que pretendia dizer.
      • Crítica da competência: se preocupa em averiguar o grau de conhecimento que o autor tem do acontecimento ou do assunto tratado, do princípio ao fim.
      • A crítica da intencionalidade ou de sinceridade: se preocupa em averiguar o grau de isenção do autor, isto é, em que medida ele se teria deixado influenciar pelo interesse próprio, do outrem ou pela simpatia ou antipatia que lhe merecem as pessoas, as instituições, a classe, ao partido, a religião ou as ideias acerca das quais testemunha.
      • A crítica de exactidão ou rigor: se preocupa em averiguar o grau de exactidão ou de rigor do testemunho, isto é, em que medida é que o relato corresponde ao que se passou.
      • A crítica comparativa: que se preocupa em avaliar o grau de credibilidade dum testemunho, mediante a comparação da informação por ele fornecida com as informações fornecidas por outros testemunhos.
      • Hermenêutica: é a operação pela qual de procede à interpretação dos documentos em termos de saber-se em que medida é que a informação fornecida por estes responde as questões inicialmente colocadas.

A Síntese Histórica: visa a reconstituição do passado histórico através de um texto, livro, artigo de revista, etc. A síntese histórica é sempre relativa porque o historiador tenta explicar, construir, uma visão do passado dos homens, estabelecendo uma cadeia corrente no tempo e no espaço, do presente e ao passado, através dos indícios, dos restos do seu passado permanecerão até ao presente e só quando eles forem captados pelo espírito do historiador. O que resulta é sempre uma perspectiva entre muitas “uma” leitura possível dos documentos. É sempre uma perspectiva incompleta, embora objectiva, ela é relativa, na medida em que é impossível a mente do historiador recriar o passado dos homens na sua íntegra.

Por outro lado, o historiador homem do presente, selecciona as fontes segundo a sua perspectiva em que se coloca. O historiador interroga aos vestígios do passado como homem do presente, procurando responder preocupações da sua época.

A história é pois um produto do presente, uma visão dos vivos sobre o passado que permaneceu nos vestígios/fontes, que atingira ao presente. Como produto não pode ser nunca desligado da personalidade do tempo, local e do grupo que o produziu.

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Os historiadores, homens do presente, reflectem nas suas obras, suas preocupações, suas opções, suas ideologias. Esta subjectividade sempre presente no trabalho do historiador, é que determina a relatividade do pensamento histórico.

Uma boa síntese deve ter em conta o seguinte: clareza, exactidão, o respeito pelas fontes, a indicação precisa e correcta das mesmas, a resposta tão completa é desenvolvida quanto possível as questões colocadas a referência aos pontos deficientemente esclarecidos e a necessidade pela posterior investigação e confirmação ou informação das hipóteses previamente colocadas.

A síntese terá de adequar ao tema em análise, ao quadro cronológico e geográfico seleccionado, ao ramo da história praticada e a própria metodologia seguida.

Noções Sobre Epistemologia da História

Epistemologia: é a disciplina que trata dos problemas filosóficos colocados pelos cientistas, particularmente o do valor do conhecimento científico. A epistemologia da História não é se não o estudo crítico da relação entre o sujeito e o objecto do conhecimento. Isto advento facto de o passado não se puder atingir de forma directa, se não através de fontes e para se reconstituir o passado seria necessário o papel activo do sujeito que interfere como um ser biológico e social, com todas implicações que daí advém.

O sujeito é pois fruto de uma sociedade determinada e consequentemente ele tem as suas limitações sociais, sofre as suas influências, apresenta um dado estudo social e económico, foi educado segundo uma ideologia e todos estes elementos acabam tendo reflexo no discurso histórico do sujeito do conhecimento.

Como foi claramente referenciado anteriormente, a problemática fundamental da epistemologia está na verdadeira relação que se estabelece entre o sujeito, objecto e conhecimento. O problema fundamental que se põe a cerca do conhecimento consiste em saber a origem ou fonte do conhecimento que adquirimos, isto é, se estes conhecimentos têm uma origem exterior ou interior. A esta questão respondem os empiristas, idealistas e racionalistas.

Corrente empirista: os empiristas Thomas Hobbe, John Lock, Barkeley e Hume, dando primazia a experiência, afirmavam que nada existia no intelecto que não tivesse passado antes pelos sentidos. Para eles, o espírito da criança era ao nascer tal como uma tábua rasa ou folha de papel em branco, onde nada estivesse escrito. Para estes, as pessoas por meio das suas consciências podiam conhecer os objectos e que o conhecimento humano deriva directa ou indirectamente das experiências.

Corrente racionalista: para os racionalistas, o conhecimento resulta duma interacção entre o sujeito e o objecto, pela qual nem a razão era redutível aos dados sensoriais fornecidos pelo objecto, nem este era redutível a interpretação racional que dele elaborava o sujeito. Cada um tinha a sua função própria: enquanto o objecto fornecia os dados do conhecimento sob forma de sensações, a razão cabia o papel de através da conceptualização e dos princípios racionais interpretar tais dados.

Corrente idealista: para esta corrente, o sujeito constituiria também uma fonte do conhecimento, sob forma de conhecimentos inatos ou ideias inatas. Segundo Platão, aos nascer já a criança traria consigo uma larga bagagem de ideias e para Descartes a criança já vinha o mundo com ideias, ideias inatas, embora em estado potencial.

Verdade Absoluta ou Relativa

As verdades históricas são relativas. Não existem certezas definitivas da história. A verdade histórica é parcial, frágil, inacabada e relativa, porque o passado é impossível recriar na sua íntegra. O conhecimento do passado devido a sua inacessibilidade é algo progresso que se transforma constantemente e se aperfeiçoa na medida que novas fontes são descobertas e descodificadas. Por outras palavras, a relatividade do pensamento histórico deve-se:

  • Limitação das fontes;
  • Inacessibilidade do tempo histórico: o passado;
  • O facto de o historiador ser um ser social, por isso sofre influências no seu processo de formação e que é impossível distanciar delas.

Verdade Objectiva ou Subjectiva

A verdade histórica é objectiva, mas a sua objectividade é específica, isto é, é carregada sempre com uma goza de subjectividade. O historiador sujeito que conhece é um homem como qualquer outro e não se pode libertar das suas características humanas. Não é capaz de pensar sem categoria. Ele possui uma certa personalidade socialmente condicionada, no quadro de uma realidade histórica, pertence a uma nação, a uma classe, a uma ceita religiosa, cultura. Estes elementos todos acabam introduzindo no discurso do historiador elementos de subjectividade.

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