Rascunho automático

Embora o estudo dos pigmentos utilizados numa pintura frequentemente se limite à identificação destes compostos recorrendo a métodos como os atrás referidos, é possível, contudo, ir mais longe e proceder a uma caracterização mais detalhada de cada um dos pigmentos.

Do ponto de vista químico, pode proceder-se à quantificação dos elementos que fazem parte das impurezas dos pigmentos, elementos que estão presentes em muita pequena concentração e estão relacionados com a origem dos pigmentos ou das matérias-primas utilizadas na sua preparação ou com os processos envolvidos na obtenção desses materiais.

O branco de chumbo, que é o mais frequente pigmento da história da pintura de cavalete, tradicionalmente obtido por exposição de lâminas de chumbo a vapores de vinagre, é um pigmento que traz consigo as impurezas do chumbo utilizado na sua preparação, a abundância das quais, por sua vez, está relacionada com a proveniência do minério e os processos metalúrgicos utilizados na sua redução.

Assim, por exemplo, com base no teor de cobre, prata, manganês e antimónio, foi possível distinguir entre o branco de chumbo utilizado nos Países Baixos e o banco de chumbo usado em Itália durante os séculos XVI a XVIII. Teores elevados de zinco ou bário e concentrações reduzidas de cobre e prata, por outro lado, caracterizam o branco de chumbo moderno. Um outro estudo, por sua vez, colocou em evidência a evolução das concentrações de prata, crómio, cobre, manganês e zinco em obras holandesas dos últimos cinco séculos, evolução esta que está relacionada com os processos de refinação do chumbo.

Um outro exemplo desta linha de trabalho é proporcionado pelo branco de titânio, o pigmento desta cor que hoje possivelmente conhece maior utilização. Com efeito, na sua curta história de cerca de 80 anos, além de existir em duas formas cristalográficas diferentes, a anátase e o rútilo, que podem ser identificadas por difractometria de raios X ou espectroscopia de difusão de Raman, tem sido fabricado através de diferentes processos que deixam marcas químicas na composição do pigmento, as quais podem ser detectadas por métodos de análise elementar e utilizadas para datação.

Uma segunda direcção de estudo é a que envolve a caracterização isotópica, a qual se baseia no facto de os átomos de um determinado elemento não serem todos iguais em virtude de poderem apresentar diferentes números de protões. No caso do chumbo, as desiguais abundâncias dos respectivos isótopos estão relacionadas com a idade geológica dos minerais utilizados para a obtenção do metal, a qual difere do sul para o norte da Europa ou do Velho Continente para o Novo Mundo. A alteração, ao longo do século XIX, das fontes de matérias-primas, por exemplo, levou que em pinturas de França, Países Baixos e Itália a razão entre os isótopos com números de massa 206 e 204 (representada por 206Pb/204Pb), que se manteve aproximadamente constante até finais do século XVIII, tenha variado significativamente após essa data (Figura 11)19. Importa dizer que as razões isotópicas não são significativamente afectadas pelos processos metalúrgicos, ao contrário do que se passa com as impurezas.

A possibilidade de utilização das abundâncias isotópicas também não se limita ao chumbo e aos pigmentos que incluem este elemento na sua composição. Na realidade, a razão entre dois isótopos de enxofre, 32S/34S, permitiu distinguir entre azul ultramarino natural e azul ultramarino artificial e entre as diferentes proveniências destes materiais.

Uma terceira forma de caracterização dos pigmentos é a que se baseia em propriedades físicas como a dimensão e forma das partículas que os constituem.

Nos casos em que existem variedades naturais e artificiais de um pigmento, é comum corresponder à variedade natural cristais com maior dimensão média e maior heterogeneidade de tamanho do que à variedade artificial. As diferenças, porém, não se limitam a esta situação. Por exemplo, a partir dos cortes transversais utilizados para a observação das estratigrafias de um conjunto de pinturas flamengas, van Asperen de Boer determinou as dimensões das partículas de pigmentos tradicionalmente utilizados com granulometria grosseira, como é o caso da azurite e do azul ultramarino, e encontrou quer semelhanças quer diferenças significativas entre algumas obras.

As razões para este tipo de caracterização que vai além da identificação não ser habitualmente efectuada estarão talvez no facto de envolver um significativo acréscimo de trabalho em relação à simples identificação, nalguns casos às maiores exigências em termos de equipamento e, sobretudo, à ausência de solicitações concretas que só desta forma possam ser efectivamente resolvidas.