Apontamentos A história possível do edifício, os principais momentos construtivos e as interrogações

A história possível do edifício, os principais momentos construtivos e as interrogações

A história 

Tentemos descrever as épocas construtivas do seguinte modo. 

A primitiva construção setecentista terá sido utilizada a partir da segunda metade do século, e durante cerca de 80/90 anos, até ao terramoto de 1755, que a danificou bastante.

Do conjunto fazia parte uma Igreja, a norte dos actuais claustros, que ruiu completamente. Este foi o primeiro período de ocupação, que vai, portanto, de meados do século XVII, a meados do século XVIII.

Após o terramoto, entre 1755 e 1758, o Padre Malagrida, de origem italiana e então director do colégio, empreendeu a reconstrução do que, em conjunto com o que terá ficado de pé do anterior, chegou no essencial dessa época, até nós. 

Como nota de relevo este padre viria a ser, em 1758, o último supliciado pelo Santo Ofício.

Em 1759 o colégio foi fechado e os padres que nele ainda residiam, foram conduzidos para Lisboa, sob prisão. 

Entre 1758 e 1781 o edifício foi ocupado pelas Freiras Bernardas, por haverem ficado, em consequência do terramoto, sem o seu convento de Lisboa.

Estas freiras terão realizado obras, não se sabe se no edifício, mas sobretudo em terreno que lhes foi doado em 1772, pelo Rei. Aí construíram o seu novo convento. 

Este o segundo período de utilização do edifício, o período Oitocentista, um período onde se registam algumas obras, sobretudo de reconstrução.

Parece que a capela, hoje existente, terá ficado danificada e não se sabe até que ponto teria sido reconstruída pelos padres Jesuítas ou pelas Freiras Bernardas.

Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, o edifício, como tantos outros pertencentes ao clero, terá ficado, se é que o não estaria já, devoluto e propriedade do Estado.

Em 1860, oitenta anos depois da última ocupação conhecida, foi adquirido em conjunto com outros conventos em Setúbal, pelo comerciante de origem galega Francisco José Pereira (Pai), que aí terá instalado um armazém e fabrico de produtos de cortiça.

Um incêndio, seguramente de grandes proporções, a avaliar pelos estragos causados nas pedras de bordadura do jardim do claustro, terá terminado com essa utilização.

Deverão ser desta época, de resto, todas as construções com vãos ornamentados em tijolo maciço, marcadas FJP, ainda hoje existentes na cerca do antigo convento, e que continuam propriedade dos Fryxell.

Esta zona, conserva usos industriais, estando ali a funcionar uma oficina, a Gráfica Papéis do Sado. 

Em 1873, Francisco José Pereira (Júnior), após a morte de seu pai em 1869, terá terminado obras de adaptação a palacete burguês do que restaria do colégio, para aí residir.

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De entre as obras deve salientar-se a recuperação da capela, que foi dedicada a S. Francisco Xavier, patrono dos religiosos da Companhia de Jesus e patrono da cidade de Setúbal. Foi benzida solenemente a 3 de Dezembro desse ano. 

Presume-se, à parte pequenas obras de adaptação interior posteriores, que foi este o conjunto edificado que chegou até ao dia da sua compra pelo estado. 

Sabe-se também que nestas obras novecentistas foram usados muitos materiais e elementos de construção provenientes de outros conventos, também comprados pelo senhor Francisco José Pereira (pai?), tais como azulejos, portas, pórticos de vãos em pedra, etc.

Esta situação contribui para dificultar o aclarar da história do edifício, como muito bem acentua um autor Setubalense, Alberto Pimentel, em 1877.

Finalmente o quarto período a destacar, século XX, envolve as obras empreendidas pelas diferentes direcções que passaram pelo Instituto Politécnico.

Foram sobretudo obras ditadas pela premente necessidade de obter mais espaço e de promover uma nova funcionalidade, no uso da compartimentação do palacete.

Como se acentuou não seguiram, tanto quanto é possível perceber, um projecto coerente e acabado de reabilitação, do que resultou algum improviso. Esta necessidade, a elaboração de um projecto de reabilitação, continua portanto em aberto. 

A intervenção nos Claustros que agora serve de base a este texto, desenvolvida entre Maio e Outubro de 2002, foi a primeira em que se procurou inverter o tipo de cultura de obras, um tanto imediatista, que vinha de traz. 

As épocas construtivas 

Resumidamente, podemos caracterizá-las: 

Período Setecentista, 1655 -1755, as obras iniciais do edifício onde funcionou o colégio até ao terramoto.

Período Oitocentista, 1755 – 1781, o que terá restado das construções após o terramoto e as obras de reconstrução empreendidas pelo padre Malagrida e, depois disso, eventualmente, pelas Freiras Bernardas.

Período de desocupação, 1781-1860, decadência e degradação das construções. Em 1834 são extintas as ordens religiosas.

Período Novecentista, 1860 – 1982, compra do conjunto edificado por Francisco José Pereira (Pai) para utilização como espaço industrial, e promoção de algumas construções novas para esse fim.

Depois, em 1873, pela mão de Francisco José Pereira (Júnior), realização de obras de adaptação do antigo colégio a palacete burguês, para habitação, e recuperação da capela. Mantiveram-se, no restante espaço da cerca, as utilizações industriais. Este período deixou-nos portanto uma dualidade: construções para uso industrial e para habitação burguesa. 

Século XX, 1982 – 2002, compra pelo estado, a herdeiros de Francisco José Pereira, Família Fryxell , da parte da cerca e das construções correspondentes ao antigo Colégio dos Jesuítas, para aí ser instalado o Instituto Politécnico de Setúbal. Realização de obras de adaptação interior dos espaços e de recuperação dos Claustros. 

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As interrogações 

Durante a preparação das obras do claustro e também depois destas realizadas, com a abertura ao público de Setúbal deste espaço, foram sendo esclarecidas algumas questões. Outras interrogações permanecem. 

Foi esclarecida, por exemplo, a existência de dois Francisco José Pereira, pai (1806 – 1869), Galego, natural de Tuy, casado em Portugal, e Francisco José Pereira filho (1838 – 1905), casado com uma senhora Inglesa.

O primeiro terá comprado o edifício do colégio e demais construções para lhes dar um uso industrial. O segundo transformou e ocupou o edifício principal, para aí viver. 

Por outro lado as sequelas de um violento incêndio, pedra enegrecida e partida, que estão patentes na bordadura do pátio do claustro, terão sido devidas a um fogo que lavrou em casca de cortiça que ali estaria armazenada.

Terá sido entre 1860 e 1869. Olhando para a fachada e consultando gravuras de Setúbal de 1816 e 1827, fica patente que ao corpo lateral do edifício foi,após essa data, acrescentado um novo piso, o terceiro, que se elevou para cima da muralha medieval. Este acrescento desiquilibrou a harmonia da fachada principal, desenvolvida em dois pisos. 

A Muralha por seu lado terá sido também coberta, ao longo desse novo piso, ficando o arco de S. Sebastião com o aspecto que tem hoje. Terá sido obra de Francisco Pereira (Filho). Mas não se conhecem referências concretas. 

Subsiste a dúvida sobre a época de construção inicial deste corpo lateral e da capela sobre o qual assenta.

Os vãos que, na cave e no rés-do-chão, dão passagem ao corpo principal, foram executados em viés, atravessados. Por que razão? Será que este corpo terá sido construído posteriormente ao principal? Na zona nobre, primeiro andar, já não existe traço deste tipo de ligação. 

Será que este corpo inicialmente constituído pela capela, ao nível da cave, mais os dois pisos correspondentes ao nível da fachada principal, terá sido ampliação empreendida pelos padres Jesuítas a partir do corpo principal, ligando-o à muralha? O que se sabe é que já existia em 1816. 

E o corpo principal, erigido em face do porto, com uma organização volumétrica que reproduz outras existentes na zona de Lisboa, em edifícios ligados a usos portuários, terá sido mesmo construído pelos Jesuítas, ou já existiria antes, com outros usos?

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