Apontamentos Porquê valorizarem-se os vestígios arqueológicos?

Porquê valorizarem-se os vestígios arqueológicos?

Ponderando-se os muitos obstáculos que devem ser ultrapassados e sem a capacidade para se prever com alguma certeza o desenvolvimento bem sucedido do empreendimento, justifica-se que se questione a justeza de se valorizar este património.

A descoberta de vestígios arqueológicos na cidade atraiu rapidamente a curiosidade e a atenção das populações.

Desde a década de 1960, isto significou que os arqueólogos tiveram que abrir os sítios ao público durante as escavações, por meio de visitas guiadas a esses sítios.

Na realidade, a valorização dos sítios arqueológicos é, meramente, uma extensão e uma consagração desta prática espontânea que parece dar resposta a uma solicitação generalizada do público geral.

Este requisito é explicado por um crescente interesse, demonstrado pelo público, sobre as sociedades do passado e sobre as formas de vida do passado.

Confrontando-se o homem actual, que tem as suas dúvidas e inquietações, com os seus antepassados, por vezes extremamente longínquos, ele [o património arqueológico] traz, com os métodos e as palavras da ciência, alguns elementos de raciocínio a quem quiser responder às grandes questões da existência, e contribui para a redefinição, de outra forma, das relações do homem com as suas origens e, por isso mesmo, com o Universo.

Para além disso, deve-se sublinhar que existe, actualmente, uma tendência para a arqueologia enfatizar o interrelacionamento entre os grupos sociais e o seu ambiente.

Assim sendo, isto conduz a uma preocupação que é levantada, de uma maneira muito geral, pelas comunidades em relação aos assuntos ambientais e à salvaguarda do património natural e humano.

A valorização dos sítios arqueológicos não responde apenas às solicitações do público. Ela também responde aos anseios dos arqueólogos em darem a conhecer as suas descobertas e a partilharem-nas com tantas pessoas quanto possível, em vez de as guardarem para uns tantos especialistas.

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Neste ponto, ela tornou-se popularizada numa dimensão que é encarada universalmente em diversos campos científicos, que vão desde a biotecnologia até às ciências sociais.

Sempre que o interesse público esteja claramente estabelecido ou meramente implicado, deve-se ter em consideração que os principais desafios para a sua popularização são a justificação do investimento na investigação e a manutenção de um debate aberto sobre os seus potenciais benefícios para a sociedade.

Pode-se aplicar o mesmo à arqueologia urbana, a qual pode atrair enormes investimentos mas representar, ao mesmo tempo, maiores ou menores riscos em termos do desenvolvimento da cidade.

Sob este ponto de vista, deve-se compreender que uma obra falhada, ou outra que seja mal administrada, podem ter um efeito negativo sobre a percepção que o público tem da arqueologia.

A valorização de um sítio arqueológico é distinta das outras formas de popularização, já que ela convida o público para aquilo que é, ou que foi, um laboratório de investigação.

É claro que isto apresenta benefícios e, também, desvantagens.

Os benefícios mais significativos são, sem dúvida alguma, o contacto directo entre o visitante e a evidência tangível do passado, bem como a possibilidade da sua participação no progresso da investigação.

Entre as desvantagens, está o facto de uma escavação ser, por definição, um processo destrutivo.

É necessário, portanto, prever-se a valorização futura durante o decurso das investigações arqueológicas, num tempo em que a natureza total das descobertas ainda não é conhecida.

A decisão sobre quais os vestígios que devem ser destruídos fica, então, investida com novas prioridades.

Idealmente, os arqueólogos devem procurar, por todos os meios, antecipar as implicações da preservação após o final das escavações, tomando em consideração os seus objectivos.

A adequação das suas decisões depende, então, da sua capacidade para encontrarem o delicado equilíbrio entre a execução de uma cientificamente elevada investigação – sem a qual todas as obras de valorização são espúrias, a preservação dos vestígios arqueológicos para as gerações futuras, e a selecção dos vestígios que devem ser retidos para finalidades educativas, o que possibilitará aos futuros visitantes compreenderem a evolução do sítio.

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No entanto, deve-se notar que, em muitos casos, a decisão sobre a valorização de um sítio só acontece quando as escavações já estão em curso.

Ainda assim, os arqueólogos ficam confrontados com os mesmos desafios.

Finalmente, a valorização do património arquitectónico tem uma dimensão política.

A maioria dos vestígios urbanos cobrem um espectro histórico muito vasto, numa escala trans-Europeia, enquanto que, ao mesmo tempo, apresentam uma forma de regionalização, característica da adaptação a um estilo – um estilo de pensamento, de arquitectura ou qualquer outro, num contexto local.

Quando se acondiciona um sítio arqueológico e quando aí se constrói um museu, procura-se privilegiar o que é original.

Ao contrário, a decisão de um investimento para um sítio é tanto mais interessante para os cientistas, assim como para o público, quanto as características desse sítio respondem a um feito de civilização ou a um facto da história de importância supra-local.

O ideal é que se possam acumular as duas vantagens, cujo antagonismo é menos paradoxal do que parece.

A exploração do património em geral, e dos vestígios arqueológicos em particular, permite a valorização dos atributos específicos de um sítio, enquanto que, ao mesmo tempo, cria laços com outros sítios semelhantes, por vezes distantes, originários dos mesmos contextos sociais, culturais e históricos.

A criação de sítis que podem ser visitados pode, então, ser encarada como um potencial factor numa estratégia local e universal para a procura da identidade.

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