Apontamentos O conceito de palavra em Saussure e Bloomfield

O conceito de palavra em Saussure e Bloomfield

Em “Um conjunto de postulados para a ciência da Linguagem”, Bloomfield procura dar definições absolutamente explícitas para os termos da linguística descritiva. A definição de palavra que ele propõe é de cunho puramente distribucional.

De acordo com Bloomfield (1978[1926]), uma forma é um traço vocal recorrente que tem significado e todo enunciado é inteiramente constituído de formas.

Dentro deste quadro, define-se a palavra através das seguintes afirmações: (a) um X mínimo é um X que não consiste inteiramente de X’s menores; (b) uma forma que pode ser um enunciado é livre. Uma forma que não é livre é presa; e (c) uma forma livre mínima é uma palavra.

Para Bloomfield, uma palavra é, portanto, uma forma que pode ser enunciada sozinha (com significado), mas não pode ser analisada em partes que podem (todas elas) ser enunciadas sozinhas (com significado).

Em Language (1933), Bloomfield apresenta a mesma definição, embora dentro de um quadro diferente: uma forma livre composta inteiramente de duas formas livres menores é um sintagma.

A palavra é a forma livre que não é um sintagma. Mais especificamente, a palavra é uma forma livre não composta inteiramente por formas livres menores. Bloomfield define, pois, a palavra como a forma livre mínima.

Acrescenta ele que, na medida em que apenas as formas livres podem se constituir isoladamente num enunciado, a palavra, unidade mínima enquanto forma livre, exerce um papel importante em nossa atitude em relação à língua: a palavra é a menor unidade do discurso.

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Ou seja, a palavra é a menor unidade linguística de que facilmente temos consciência.

Saussure (1916:122), por outro lado, problematiza os métodos correntes de delimitação: “…basta pensar na palavra cheval (‘cavalo’) e em seu plural chevaux. Diz-se correntemente que são duas formas da mesma palavra; todavia, tomadas na sua totalidade, são duas coisas bem diferentes, tanto pelo sentido como pelos sons.”.

Saussure prossegue dizendo que a tentativa de equiparar unidades concretas a palavras nos leva a um dilema, o de ignorar a relação evidente que une, por exemplo, cheval a chevaux e dizer que são palavras diferentes; ou então, estabelecer uma abstração que reúne as formas de uma palavra.

Vemos, portanto, que, enquanto Bloomfield identifica palavras por seu papel na estrutura do enunciado, Saussure (1916:123) se preocupa em identificar palavras no sistema de valores mental: “Uma teoria assaz difundida pretende que as únicas unidades concretas sejam as frases: só falamos por frases, e depois delas extraímos as palavras. Em primeiro lugar, porém, até que ponto pertence a frase à língua? Se é coisa exclusiva da fala, não poderia nunca passar por unidade linguística.”

Os dois conceitos refletem dois pontos de enfoque do estruturalismo: a estrutura do enunciado e a estrutura do sistema linguístico; e dois pontos cruciais de desafio a definições: a relação lexema-vocábulo-palavra e a questão da identificação da palavra na corrente da fala e sua distinção com a palavra enquanto unidade linguística.

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