Impacto do Ensino Rudimentar e Oficial

O ensino rudimentar, para iniciação dos alunos indígenas, compreendia o ano de iniciação, a 1ª classe (1o grau) e a 2ª classe (2o grau). Alunos das escolas missionárias podiam ingressar no ensino primário ou concluí-lo nas escolas oficiais. Em todas as classes, os alunos eram submetidos a exames.

Concluída a 4ª classe, os alunos africanos faziam o exame de ‘ingresso’ no ensino secundário, localizado apenas nas cidades. Nas classes terminais de cada nível do ensino secundário havia um exame final. Pode-se dizer que o sistema de avaliação da escola colonial, muito selectivo, foi uma das causas do alto índice de reprovações e fracasso escolar dos alunos africanos. Concomitantemente, para o factor ‘exclusão’ jogou papel importante a localização de escolas em cidades e vilas, o que fez com que a maioria de crianças dosespaços rurais pouco ou nada se beneficiasse da escola: além de distante, não podiam frequentá-la, por faltade condições financeiras.

Em nome da ‘acção civilizadora’, nas escolas indígenas missionárias (rudimentares) se tornou obrigatório o ensino da Língua Portuguesa. As línguas indígenas foram relegadas à utilidade doméstica, ou tinham utilidade na catequese e nos rituais religiosos, sobretudo nas zonas rurais, devido ao facto de alguns padres, recrutados do estrangeiro, não saberem falar português. A escrita seguia padrões da norma da língua literária, descrita pelas gramáticas da língua portuguesa. E o africano que experimentasse o privilégio de ser aluno, devia dominar a língua da escola, na sua norma culta, formal.

Assim, os poucos nativos que pela escolarização se tornaram falantes do português falavam-no diferentemente dos que o adquiriram espontaneamente em contextos informais, em actividades comerciais e agrícolas e em situação de empregados domésticos. O currículo escolar transpirava preconceitos linguísticos pelos quais se considerava a língua e a cultura portuguesas como superiores às línguas e cultura bantu.

Não sendo toleradas outras normas dessa línguatão resguardada, ficavam excluídos da possibilidade de ascenderem socialmente todos os que não falassem/escrevessem satisfatoriamente a língua portuguesa. Os poucos moçambicanos que se escolarizavam se vinculavam, dentre outras, a funções eclesiásticas, burocráticas ou militares, em posições bastante subalternas.

A aprendizagem formal da Língua Portuguesa favoreceu de alguma forma a configuração da estratificação social: ao nível das ocupações, distinguiam-se funcionários da administração pública e serviços públicos (educação e saúde), operários, agricultores, comerciantes, artesãos e camponeses. Os espaços habitacionais também se demarcaram: no centro das cidades e vilas, os senhores ligados à administração política colonial (a aristocracia) e depois, nos bairros suburbanos, os operários, comerciantes e artesãos; nas zonas rurais, alguns colonos comerciantes e agricultores entre os camponeses.