Algumas manifestações mais marcantes da cultura cabo-verdiana

Algumas manifestações mais marcantes da cultura cabo-verdiana

A língua cabo-verdiana – o crioulo

A língua crioula cabo-verdiana nasce e afirma-se com a origem do povo cabo-verdiano. Resultado da conjuntura do povoamento e colonização do arquipélago, ela é reconhecida como importante elemento da identidade e da cabo-verdianidade. Para os cabo-verdianos a língua crioula não é apenas um meio de comunicação, mas também de afirmação identitária e de se sentirem verdadeiramente cabo-verdianos. “A língua cabo-verdiana é, deste modo, a nossa bandeira cultural e um dos elementos mais significativos do nosso cartão de identidade” (Veiga 2002: 7).

A língua cabo-verdiana, como língua materna, surgiu da necessidade urgente de comunicação e de compreensão mútua entre grupos presenciais no povoamento/colonização do Arquipélago de Cabo Verde. Surge da interacção e interadapatação entre as línguas presentes neste processo.

Nos primórdios do povoamento, os africanos, provenientes de diferentes etnias e regiões, não compreendiam a língua do colonizador, tendo sido obrigados a criar uma nova língua, que lhes permitisse a comunicação. Tendo por base o português, esta forma de comunicação rudimentar, conhecida como “proto crioulo”, alastrou rapidamente por todo o arquipélago. Como solução, “utilizaram os lexemas portugueses com a sintaxe das suas próprias línguas, mas numa perspectiva de autonomização estrutural” (Duarte 2003: 37).

O contacto entre os grupos presenciais no processo de povoamento de Cabo Verde foi fundamental no surgimento da língua crioula cabo-verdiana. O seu aparecimento “se deveu à necessidade de comunicação entre portugueses e povos das costas africanas” (Caniato 2002: 130).

O português, principalmente o do século XV e XVI, foi fundamental no surgimento da língua crioula cabo-verdiana, que se formou algumas décadas após o início da ocupação do arquipélago de Cabo Verde, aliás, aproximadamente setenta anos após o povoamento (Carreira 1983: 344).

O crioulo cabo-verdiano atravessou um processo de evolução até se tornar a língua que hoje identifica a Nação cabo-verdiana. A sua formação e evolução deve-se a três fases importantes: (i) o pidgin; (ii) o proto crioulo e (iii) o crioulo, ou seja, a língua cabo-verdiana.

O pidgin que é a forma mais rudimentar de comunicação verbal, ou seja, a linguagem veicular que surgiu como forma de resolver todo um embaraço social na comunicação nas primeiras décadas da colonização de Cabo Verde; O proto-crioulo, que corresponde ao aperfeiçoamento do pidgin pelo acrescento de vocábulos e pelo uso de um sistema gramatical mais estruturado que o do pidgin; (iii) O crioulo propriamente dito, resultante de uma soma considerável de vocábulos originários de uma língua em que se apoiou, adaptado aos órgãos articulatórios do grupo de aprendiz, e de formas gramaticais correctas mais complexas do que as utilizadas no proto-crioulo (Carreira 1982: 87).

Através desta análise surge a tabela (1), que possibilita compreender o surgimento e a evolução da língua materna cabo-verdiana.

Fases Épocas Caracterização
Pidgin Inícios da descoberta ecolonização (1462). ·  Comunicação confusa;·  Pouca estruturada em termos gramaticais e lexicais;

·  Ausência de base sintáctica.

Protocrioulo A partir do século XVII. ·  Algumas bases lexicais e gramaticais;·  Mais bem estruturado que o pidjin, e o reforço na base sintáctica.
Crioulo Meados do século XVII einícios do século XVIII. ·  Recursos gramaticais e lexicais próprios;·  Estabilidade estrutural, assente numa base sintáctica melhorada.

Tabela 1: Origem e evolução da língua crioula cabo-verdiana (Fonte: adaptação às bibliografias de João Lopes Filho (1981) e António Carreira (1982).

Música e Dança

Origem da música tradicional cabo-verdiana

Em Cabo Verde a música desempenha um papel de relevo em diversos aspectos da vivência das nossas gentes, pois ela faz parte de toda a actividade social cabo-verdiana, fortificando-a através das práticas lúdicas, bailes, divertimentos e outros passatempos e exerce uma acção que desperta motivações vivenciais.

Até agora, não há estudos aprofundados que comprovam a origem das músicas caboverdianas. Entretanto, defende-se que na origem da música tradicional cabo-verdiana, estão ligados diversos elementos de várias proveniências: as lamentações árabes, os alegres ritmos africanos, os cantares dos colonos, nomeadamente as cantigas de escárnio e maldizer dos portugueses. No entanto, o escravo, mais do que o colono, foi portador e cultivador das lamentações, por ser em maior número e viver num ambiente de sofrimento.

Essas lamentações transformadas em música vieram a originar em Santiago a tabanca, o funaná, o finaçon e o batuque, expressões musicais de sentimentos profundos como a dor da escravidão e o sofrimento da saudade, mas também de uma elevada dose de maldizer. Surgiram ainda outras expressões musicais, entre as quais a morna e a coladeira.

Géneros musicais

Das formas musicais que compõem o panorama cabo-verdiano, existem o Batuque, os ritmos e cantares da Tabanca, os ritmos e cantares do Kolá, inerente às festas dos santos, o Funaná, a Morna, a Coladeira, e as formas orquestrais modernas derivadas do Funaná tradicional, bem como formas musicais decalcadas directamente da cultura europeia como Valsa, Mazurca e Contradança, que se adaptaram perfeitamente ao ambiente cabo-verdiano.

Além desses géneros musicais, também temos outros estilos ligados à religião (ladainhas, etc.), cantigas de trabalho (cantigas da monda, cantigas marítimas e pastoril) e cantigas infantis (cantigas de ninar, cantigas de roda, etc).

A morna

A morna é uma expressão musical, através da qual o cabo-verdiano transmite todo o seu sentimento, seja ele qual for, no momento da sua execução.

A morna é uma expressão máxima da dor e do sofrimento do cabo-verdiano.

De acordo com a tradição, a morna nasceu na Boa Vista no fim do século XIX (a mais antiga de que se tem conhecimento, “Brada Maria”, data de 1870).

Com os marinheiros da Boavista, a morna chega às outras ilhas. Em São Vicente, ela vai evoluir no plano melódico graças a instrumentistas como Luís Rendall que, bastante influenciado pela música brasileira, introduz o choro na música cabo-verdiana.

Na Brava, o romantismo do poeta Eugénio Tavares transforma as letras da morna. Os textos deixam de ser satíricos e cantam o amor, a mãe, a cretcheu (a “paixão”), o mar, a partida, a saudade, a separação…

Com a chegada dos cantores, a morna conquista definitivamente as suas letras de nobreza.

Entre os grandes compositores da morna destacam-se Francisco Xavier da Cruz, mais conhecido por B. Leza, Lela d’Maninha, Olavo Bilac, Muchim d’Monte, Sergio Frusoni, Jorge Monteiro “Jotamont”, Manuel d’Novas, Ano Nobo, Renato Cardoso e Betu, entre muitos, enquanto Cesária Évora, Titina, Bana e Ildo Lobo fazem parte dos cantores mais emblemáticos.

A coladeira

A coladeira é uma música satírica cabo-verdiana, com um ritmo acelerado que se baseia quase exclusivamente na ironia, com o objectivo de ridicularizar e gozar.

A coladeira é um novo género musical que nasceu em São Vicente, na 2ª metade dos anos 50. Quanto à sua origem, segundo vários autores, nomeadamente Jotamont, coladeira tem a sua origem na morna tocada num ritmo mais acelerado, resultante do entusiasmo com que antigamente de dançavam determinadas mornas vivas e alegres.

Ao contrário da morna que viajou por quase todo o arquipélago, a coladeira fez-se numa única ilha, São Vicente.

O funaná

O Funaná, que terá surgido, inicialmente, no meio rural da Ilha de Santiago, entretanto, possui um ritmo muito mais acelerado que o da Coladeira e mais próximo da África, sendo muito peculiar os instrumentos utilizados na sua execução – a Gaita ou Acordeão, de origem europeia, e o ferrinho (um ferro sobre o qual se faz deslizar um outro ferro ou uma faca, à semelhança de um reco-reco).

Para além de possuir um ritmo frenético  e electrizante, o Funaná possui também ritmos lentos e compassados, que são designados de Funaná-Samba e Funaná-Marcha , havendo ainda outros ritmos como o Funaná-Valsa, o Funaná-Maxixe, etc. A letra do Funaná retrata o quotidiano da população, a vivência ilhéu, os sentimentos e a filosofia do cabo-verdiano, constituindo também um meio de crítica e de ridicularização de comportamentos e atitudes.

Muitos são os autores que têm procurado explicar a origem do funaná. Para uns, o funaná surgiu ligado à vulgarização do acordeão em Santiago. Para outros, este género musical surgiu da junção de duas palavras, Funa e Naná. São nomes de dois grandes tocadores. Um se chamava Funa e o outro Naná.

Na época colonial o funaná foi desprezado e considerado uma música de mau gosto e sobreviveu no meio rural isolado, e até discriminado. O funaná é uma música de dança que terminava, muitas vezes, em brigas.

O Finason

O finaçon é um canto singelo (simples) que está ligado ao batuque. Inicia o batuque trazendo à baila um motivo qualquer com o propósito de criticar e dar conselhos. É improvisado por cantadeiras da ilha de Santiago.

Com a independência nacional, verifica-se um movimento de revalorização de todas as formas musicais existentes em Cabo Verde e o funaná foi revitalizado nos finais dos anos 70, pelo conjunto Bulimundo sob a orientação de Carlos Alberto Martins (vulgarmente conhecido por Katchás).

O Batuque

É um género musical de origem africana, que já existe apenas em Santiago. O batuque é um género musical de características satíricas e de desafio (canto musical seguido de respostas tanto nos versos como na música). Que encerra críticas, censuras e zombarias. No batuque distingue-se duas fases fundamentais: o finaçon apenas com o canto e bater de palmas; o batuque propriamente dito com conto, cimboa, tchabeta e dança.

Numa sessão de batuque, é assim que acontecem as coisas. A festa começa com o batuque, melhor a sambuna, e acaba com o finaçon (o finaçon é uma sucessão de provérbios e conselhos declamados com inflexões vocais). As mulheres sentam-se em círculo, as dançarinas ocupam o centro e colocam um pano enrolado entre as pernas. O som é quase o mesmo. O pano substitui a percussão e marca o ritmo enquanto uma das mulheres entoa uma melodia. Segue-se o coro do resto do grupo. Uma outra mulher entra no meio da roda, com um pano à volta da cintura, os braços em direcção ao céu e começa a dançar. Bate-se com mais força. É a tchabeta! A mulher mexe a cintura, cada vez com mais força. Da ku torno! O ambiente aquece. Rapica tchabeta! A excitação é geral. As pessoas à volta da roda gritam e aplaudem.

Antigamente, o batuque era sobretudo montado durante as cerimónias de casamento, baptismo e todas as festas no meio rural em Santiago.

A Tabanka

A Tabanka, por seu lado, é fruto de uma miscigenação étnica e cultural e produto de um sincretismo religioso e também designa o conjunto de rituais e festejos que na ilha de Santiago celebra o ciclo dos “santos juninos” entre 3 de Maio e 29 de Junho. É uma manifestação popular de acentuado carácter festivo e de rua, que conjuga também cântico, música, dança e alegria, em procissões que se realizam em determinadas datas sagradas. Reunindo tambores e búzios, cornetas e apitos, um grupo de pessoas, vestidas de forma especial, sai em cortejo pelas ruas, marchando ou dançando ao compasso dos ritmos sincopados dos tambores, das cornetas e dos búzios, que são acompanhados de cântico e de coro. Mas a Tabanka, para além do seu carácter festivo, é sobretudo uma sociedade ritualista, com uma organização sólida à volta de um princípio de vida, donde a solidariedade, a entreajuda e coesão comunitárias se revelam como signos de uma sabedoria popular.

O colá

Falando agora dos Colá das várias ilhas, que, no fundo, são idênticos às Tabankas da Ilha de Santiago, é de destacar que todos eles são festas consagradas aos santos patronos de determinadas localidades e que decorrem, normalmente, entre os meses de Maio e Julho, com maior ênfase em Junho. Os Colá são manifestações e rituais populares, resultantes de um sincretismo religioso, que têm tambores e apitos como instrumentos musicais e que se fazem acompanhar de cânticos a solo e em coro, existindo, entretanto, algumas particularidades que os diferenciam.

O colá é uma dança ao som de um tambor, que é característica dos festejos dos Santos Populares, em que os pares dançam de braços levantados embatendo-se de frente. Daí em crioulo chamar-se o Colá S. Jom.

Outros géneros

Para além dos géneros frisados também pode-se ainda considerar outros géneros que fazem parte do nosso patamar cultural. Assim temos alguns géneros de cariz religioso nomeadamente as rezas, ladainhas, vésperas, estas que foram aprendidas pela população através do contacto com os missionários que durante a época colonial trabalharam na evangelização desse povo. As rezas geralmente são recitadas em forma de música num tom com pouca oscilação, normalmente em algumas festas de santos, ou ainda em ocorrências de funerais. Do mesmo modo temos ainda as cantigas de trabalho que são recitadas durante as lides do dia-a-dia do camponês. Estes géneros são mais frequentes nas ilhas agrícolas, nomeadamente Santiago, Fogo, São Nicolau e Santo Antão. Contudo, estes géneros musicais com o passar dos tempos são cada vez menos ouvidos. Ainda no repertório cultural cabo-verdiano podemos encontrar alguns géneros com cariz marcadamente europeu que se foram adaptando ao nosso meio. Estamos a referir ás Marchas, Mazurcas, Valsas Polcas, boleros e Sambas e também algumas cantigas de roda geralmente utilizadas pelas crianças nos seus momentos de lazer. Antigamente, longe das influências dos meios audiovisuais, as cantigas de roda eram utilizados durante as brincadeiras nocturnas das crianças em noites de luar nos seus entretenimentos. Hoje, é muito raro encontrarmos estas brincadeiras com frequência.

A Gastronomia

Colorida pelas influências africanas mas incorporando alguns hábitos da cozinha tradicional portuguesa a gastronomia caboverdeana é rica em cores e sabores. A base da alimentação tradicional são os alimentos produzidos localmente, quase sempre incorporando o milho.

Pratos de carne (porco, vaca, cabra e cabrito), simples ou guarnecidos com verduras, ou de peixe garantem uma variedade de sabores. O prato nacional de referência é a catchupa, confeccionado com carnes várias (frango, vaca, porco e enchidos) acompanhado de milho “cochido”, feijão ou favas, batata e couve e enriquecido, por vezes, com ovos fritos ou peixe. Também o modje Manel Antóne (cabrito) suscita as delícias dos apreciadores da cozinha africana.

Cabo Verde, com o seu mar rico em espécies marinhas, sustenta a variedade da cozinha cabo-verdeana proporcionando agradáveis surpresas aos apreciadores de peixe e marisco.

Nesta vertente o prato típico nacional é o caldo de peixe; o atum, peixe serra, espadarte, garoupa, esmoregal e a moreia, são algumas das espécies mais apreciadas; percebes, búzios, polvo e lagosta merecem destaque especial. É típico comer bafas de marisco, apresentadas como entradas ou simples aperitivos

As sobremesas não devem passar despercebidas. De paladares diferenciados a doçaria, variada, baseia-se no leite e nas frutas nacionais – papaia, manga, coco, azedinha.

Os pudins, de queijo, café ou leite, são também referências importantes na cozinha caboverdeana. O queijo de leite de cabra, oriundo da Boa Vista, acompanhado de doce de papaia (apelidado de Romeu e Julieta) é uma das sobremesas mais apreciadas.

A pesca da tartaruga é proibida devendo evitar-se consumo da sua carne e ovos.

Entre as bebidas não se deve deixar de provar o vinho frutado do Fogo (branco e tinto), o manecon, produzido nas encostas do vulcão, e o café cru, um dos melhores do mundo. O famoso grogue, aguardente de cana-de-açúcar, bebida fortemente alcoólica e fabricada ainda por métodos artesanais na ilha de Santo Antão ou em zona rurais de Santiago, encontra-se generalizado por todo o arquipélago podendo ser adquirido em atraentes embalagens. O pontche e os licores de frutos juntam o “grogue” aos sabores tropicais

 Crenças e superstições

São inúmeras as crenças que circulam entre os cabo-verdianos. A “crença”, por vezes, é definida enquanto fé religiosa, outras vezes, como uma convicção que se pode situar noutros domínios que não o religioso e ainda, às vezes, simplesmente como crendice ou superstição. A crença tanto pode ter carácter religioso como profano. Quanto à superstição, pode-se dizer que o povo cabo-verdiano é extremamente supersticioso. As formas de superstição e crenças populares são primordialmente conotadas com a tradição africana. No entanto, o feitiço e os bruxedos também se inserem perfeitamente na cultura popular portuguesa.

Diz-se que as crenças e as religiões terão certamente entrado em Cabo Verde com os primeiros povoadores, em 1462. No entanto, vale a pena falar de algumas crenças que, até há cerca de uns cinquenta anos atrás, tinham bastante força e peso social em Cabo Verde. Estas mesmas crenças têm vindo a perder credibilidade sob o efeito da escolarização, cristianização, progresso sociocultural e científico, modernização e do poder interventivo dos meios de comunicação social que têm vindo a transformar as mentalidades e os comportamentos. Assim, as crenças a que nos vamos referir são o curandeirismo, a Kórda, a “fetíseria”, as bruxas, os espíritos ou finados (espírito de um falecido) e o “guarda-cabeça”.

O curandeirismo consiste na arte de curar diversas enfermidades e ajudar a resolver problemas. Segundo Lima Rodrigues, os curandeiros são iniciados por outro curandeiro na sua aprendizagem, mas que são escolhidos por possuírem à nascença um dom, entre outros, o de curar . O curandeiro utiliza diversas substâncias de origem vegetal, mineral ou animal que prepara com base nos ensinamentos veiculados pela tradição oral.

É pela intuição e de forma empírica que se faz o diagnóstico das doenças e se utilizam as mezinhas para as curar. Em certos casos, o curandeiro socorre-se de fármacos aos quais junta as outras substâncias. Tem havido casos em que um ou outro médico, prevendo a impossibilidade de cura, aconselha o paciente a dirigir-se ao curandeiro. Há tempos, estas práticas eram correntes até pela carência de médicos e de unidades sanitárias de base, sendo consideradas como necessárias e socialmente úteis. Hoje em dia estão em descrédito crescente porque se considera que ir a um curandeiro é manifestar ignorância.

A “kórda” corresponde ao conceito de “magia” e faz-se para impedir que determinados actos se tornem conhecidos, para obter determinados favores ou impedir que determinados actos se concretizem. Trata-se de um serviço que é geralmente pago (a um mágico) e em regra é feito às escondidas. Apesar de ter sido um serviço muito procurado, sobretudo na ilha de Santiago, hoje em dia, o seu descrédito é grande, embora muitos ainda acreditem nos seus efeitos perversos. É uma prática que se associa a uma certa dose de crença na capacidade de utilização de poderes ocultos.

A “fetisería” trata-se de uma prática que teve bastante peso na sociedade cabo-verdiana até há décadas atrás. Hoje muitos deixaram de acreditar na sua existência. Existem dois tipos: a que resulta de efeitos mágicos, a “kórda”, que já referimos, e o bruxedo ou encantamento, de efeitos sempre maléficos. As bruxas são pessoas que, por razões tidas como hereditárias, se diz possuírem um dom especial. Vêem-se normalmente associadas à eclosão de certas doenças. O feiticeiro é menos temido e menos poderoso, faz feitiço negativo em vez de curar ou ajudar . Era-se feiticeiro sem ser por vontade própria. Acreditava-se que era por uma espécie de destino que se nascia feiticeiro. Para se protegerem dos feiticeiros, os indivíduos recorriam a inúmeras práticas. Por exemplo, para proteger uma criança, colocavam-se cruzes desenhadas com “leite” de babosa  na testa, no peito, nas costas, nas palmas das mãos e nas plantas dos pés.

Os bruxos e os feiticeiros são as forças do mal, directamente ligados à doença e à morte, o curandeiro trabalha para o bem.

Ainda hoje em dia, alguns acreditam em feiticeiros que podem fazer o bem ou o mal, em curandeiros que curam, em bruxas e em almas do outro mundo. Pensa-se que são sobretudo as pessoas da ilha de Santiago, as mais ligadas a estas crenças.

A nível das superstições, também encontramos o ritual noite de “guarda-cabeça”.  É uma cerimónia que serve para proteger os recém-nascidos das bruxas e do mau-olhado. É uma espécie de baptismo que tem como objectivo proteger a criança mas que não substitui o baptismo oficial católico. É realizado no “7º dia” após o nascimento da criança.

As crianças recém-nascidas não eram vacinadas e, consequentemente, muitas delas morriam ao sétimo dia de vida devido ao tétano. As pessoas, por alguma ignorância, acreditavam muito nas bruxarias e na existência de feiticeiros e passavam a atribuir essa mortalidade aos seus efeitos perversos. Daí, a invenção popular do guarda cabeça, um acto protector que se pode chamar de sincrético-religioso

Jogos tradicionais

Os jogos tradicionais têm por fim o prazer lúdico, aliado a uma maneira de ocupar os tempos livres, diferindo-se consoante as diversas camadas etárias e sexos, cujos membros executam tarefas conforme a habilidade específica exigida para cada caso, principalmente no intuito de exercitar o corpo, pôr em confronto determinada destreza, desenvolver a mente através da aprendizagem, etc. Habitualmente alguns jogos implicam a manipulação de objectos culturais (cordas, dados, aparelhos, etc.), que são muito diferentes daqueles com a classificação genérica de “brinquedos” (bonecas de trapos, bolas, piões, miniaturas, cavalos de cana de carriço, peças feitas com o carolo do milho, carros de madeira e de lata, papagaios de papel, etc.). Executados pelas crianças e jovens, contam-se as brincadeiras de roda, apodos e apelidos usados na gíria da pequenada, jogos de escondidas, a luta entre os rapazes, os jogos de malha, as fundas, fisgas, atiradeiras, armadilhas para apanhar pássaros, etc. Grande parte dos brinquedos tradicionais são confeccionados pelas próprias crianças a partir de embalagens perdidas (latas vazias, arames, etc.), numa clara amostra da sua destreza, engenho e técnica.

As cantigas tradicionais

Nas ilhas agrícolas, nomeadamente Santo Antão, São Nicolau. Santiago, Fogo e Brava, onde o homem cuida da terra que lhe dá o pão para o seu sustento, decerto à custa de dificuldades várias, iremos encontrar as cantigas agrícolas umas vezes doloridas outras alegres.

São as dolentes e plácidas Toadas de Aboio (“colá boi”) em que o homem acompanha o boi ligado ao “trapiche” preso ao seu destino. São melodias verdadeiramente plangentes e profundas, muitas vezes em gama pentatónica, em Santo Antão e na Brava. Nesta última o canto não está ligado ao “trapiche” mas sim às épocas de “monda” e tomam o nome de Bombena.

No livro Cantigas de Trabalho, Osvaldo Osório escreve: “Este canto é usado mais precisamente na altura da plantação da batata doce”. E acrescenta: “[…] estas cantigas normalmente nostálgicas e cujos motivos são a saudade e o amor, a despedida para a terra longe, chegam a ser uma forma de emulação no trabalho”.

São também as cantigas ligadas às sementeiros ou Cantigas de Monda que se dividem em cantigas de guarda de pardal (ou ’enxotar o pardal’), de guarda dos corvos e das galinhas-de-mato que se encontram nas ilhas de S. Nicolau, St. Antão, S. Tiago e Fogo.

Às vezes estes cantos têm uma estrutura melódica mais ou menos elaborada, com intervalos não muito grandes e, outras vezes, são verdadeiros cantos recitativos, ou então, frases declamadas com nuances expressivas que hoje, com a falta de chuva, já quase não são cantadas. Para além dessas cantigas de trabalho ligadas à terra, existiam também, embora numa escala reduzida, Cantigas Marítimas que retratavam fielmente a fisionomia do caboverdeano; o género de ocupação e a sua dependência e ligação com o mar.

As Cantigas de Ninar, outrora muito cantadas pelas avós, serviam para adormecer os netinhos. Estes adormeciam embalados pela seguinte cantilena que mais não passava de um ostinato melódico no compasso binário, hoje quase esquecida.

Outro género cultivado em Cabo Verde com tendência para o esquecimento, diz respeito à geração infantil. Aqui encontramos as Cantigas de Roda e as Lenga-Lengas cantadas, ou em forma de jogos rítmicos, com percussão corporal.

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