A identidade cultural cabo-verdiana: o despertar da consciência identitária

A identidade cultural cabo-verdiana: o despertar da consciência identitária

Conceito de identidade

Genericamente, a identidade é um conjunto de características próprias e distintas de um indivíduo, um grupo social, uma comunidade ou um povo.

Porém, no campo sócio-antropológico, a identidade é entendida como a consciência que uma pessoa tem dela própria e que a torna única e diferente das outras.

A identidade é o que permite ao sujeito tomar consciência de sua existência, o que se dá através da tomada de consciência de seu corpo, de seu saber, de suas crenças, de suas habilidades e de suas ações. A identidade implica, então, a tomada de consciência de si mesmo.

Mas para que ocorra a tomada de consciência, é necessário que haja diferença, a diferença em relação a um outro. É somente ao perceber o outro como diferente, que pode nascer, no sujeito, sua consciência identitária. A percepção da diferença do outro constitui de início a prova de sua própria identidade, que passa então a “ser o que não é o outro”.

A identidade é marcada pela diferença, ou seja, pela dicotomia nós/eles, eu/outro. Para Woodward, a marcação da diferença, da oposição ou da exclusão afigura-se crucial no processo de construção das posições de identidade.

Por exemplo, a afirmação de ser cabo-verdiano traz em si uma negação, a de não ser português, brasileiro, chinês, francês, por exemplo.

A identidade é construída por meio da diferença, da relação com o outro, da relação com aquilo que não é. É através da identidade que se identifica e distingue indivíduos, grupos, povos e culturas.

A Identidade Cultural Cabo-verdiana

Muito cedo, do ponto de vista histórico, os naturais das Ilhas de Cabo Verde constituíram uma entidade culturalmente autónoma, uma sociedade e uma nação. Ainda que por vários factores, pertencessem ao espaço luso, diferenciavam-se eles dos demais ocupantes desse espaço, e chamavam a si a sua própria singularidade.

Desde meados do século XVII, terão existido elementos comuns aos naturais das Ilhas de Cabo Verde e que constituíram a base da sua identidade num todo uno e homogéneo culturalmente. A existência desses traços culturais fez com que os ilhéus se diferenciam dos demais grupos sócio-culturais, inclusive os que estão sob o mesmo estatuto colonial e no mesmo espaço luso.

Assim, começou-se a distinguir o cabo-verdiano do não cabo-verdiano, recorrendo-se às expressões ‘filhos da terra’ e ‘reinóis’.

A classificação identitária que se polarizava entre ‘nós’ e os ‘outros’ colocava, de um lado, os nativos das ilhas, os crioulos e os chamados ‘portugueses de cá’ e, de outro lado, os cidadãos vindos do reino, os metropolitanos e os chamados ‘portugueses de lá’ (…).

A consciência da identidade começa-se a ter, muitas vezes, pela oposição da ‘cultura do eu’ em relação à ‘cultura do outro’. A identificação daquilo que é ‘nosso’ só faz sentido por oposição àquilo que é ‘de alguém’. Neste sentido, a cultura de origem e o território de nascimento continuaram a ser os elementos que indicavam a linha de separação entre o “Nós” e os “Outros”. Assim, pela distinção entre os “da terra” e os “da metrópole” começou-se a formar o carácter identitário do cabo-verdiano, que assume uma identidade própria.

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De acordo com alguns estudiosos, a origem da identidade cultural cabo-verdiana estaria assente em três princípios gerais: a hibridização, a insularidade e o ruralismo tropical.

A hibridização dever-se-ia à própria mestiçagem étnica de que resultou o Cabo-verdiano: algo específico, sui generis.

A insularidade seria determinada pelo carácter arquipelágico das ilhas, circundadas pelo ar e mar, criando no espírito ilhéu o eterno dilema – “querer partir e ter que ficar” e/ou “ter que partir e querer ficar” e a base do espírito evasionista e antievasionista  tão cantado na literatura cabo-verdiana.

O ruralismo tropical teria por fundamento o facto da sociedade ser, na sua génese, agrária e num espaço geográfico tropical.

A língua cabo-verdiana – o crioulo -, a culinária e a música são três aspectos da cultura cabo-verdiana, mais comummente, usados como caracteres significativos da especificidade, da identidade e autonomia culturais do arquipélago.

A língua cabo-verdiana constitui um dos traços mais significativos da cultura cabo-verdiana, fenómeno cultural por excelência; ela é “ como que respiração do povo que o criou e dele se serve como instrumento (…) de comunicação verbal entre pessoas das mais diversas origens.

No domínio musical, a morna e a coladeira, autênticas canções nacionais, a par do batuque, com a sua finaçon, e o funaná constituem uma das expressões da realização artística do cabo-verdiano.

Outras formas e expressões culturais que contribuem para a construção de uma identidade cabo-verdiana autónoma, encontram-se na culinária com pratos típicos à base do milho, tais como a cachupa, o cuscuz, xérem, djagacida, “camoca”, etc. pratos à base de peixe, etc.

No domínio do trabalho artístico, a tecelagem, a cerâmica, os trabalhos em coco, chifres, tartaruga, etc., todos dão um rosto próprio e uma própria identidade ao que é feito em Cabo Verde.

Todas essas expressões do ethos cultural Cabo-verdiano surgiram numa situação colonial, portanto, de resistência, talvez, até mesmo duma luta cultural incessante contra a cultura do colonizador.

A importância e o peso da identidade cultural cabo-verdiana residem, precisamente, no facto de ter conseguido sobrepor-se à situação colonial, resistir à cultura dominante, tornando-se hegemónica, a tal ponto que “casos não raros há em que indivíduos naturais da Metrópole, aqui longamente residentes, se deixaram impregnar de formas, modos de dizer, construções dos naturais das ilhas, quando se exprimem em português”.

Se é difícil determinar com precisão o que seja o carácter nacional de um povo, dadas as diversidades interterritoriais (…), a verdade, porém, é que algo consegue fazer com que pessoas de um mesmo país se sintam pertencer a um mesmo espaço, diferenciando de outros espaços. No caso cabo-verdiano, esse sentimento de unidade e de pertença é traduzido na ideia e no conceito de caboverdianidade. Ideia e conceito de difícil definição, mas que, para os cabo-verdianos, condensa a morabeza, o ser ilhéu, o ser crioulo, o ter uma identidade própria capaz de nos diferenciar de tudo e de todos.

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David Hopffer Almada: Em defesa da cabo-verdianidade

A cabo-verdianidade

A partir da segunda metade do século XIX, começou a surgiu no seio dos intelectuais cabo-verdianos uma atitude de defesa do espaço a que pertencem (a terra-pátria) e da sua identidade cultural, demostrando uma tomada de consciência de especificidade do cabo-verdiano – a consciência e sentimento de ser cabo-verdiano e a percepção da necessidade de preservação da sua identidade.

Para afirmarem que Cabo Verde tinha uma identidade própria, os intelectuais Cabo-verdianos criaram vários conceitos. Uma delas é a Cabo-verdianidade. Este conceito surgiu com os nativistas. Eles defendiam que Cabo Verde tinha uma cultura, uma língua e uma identidade própria.

Esta ideia de resgate e valorização da identidade cultural cabo-verdiana – a cabo-verdianidade – não parou com os nativistas. Os claridosos também se preocupavam com isso. Eles defendiam uma identidade mestiça para o povo Cabo-verdiano. A Cabo-verdianidade aqui é entendida como a especificidade da cultura Cabo-verdiana dentro do contexto colonial português. Para eles a cultura Cabo-verdiana não é nem Europa nem África, e sim Cabo-verdiana.

Para Tomé Varela, “Cabo-verdianidade é aquilo que identifica socioculturalmente o povo e a nação Cabo-verdianos e que, por conseguinte, os distingue dos demais povos e nações (…). Entre elas estarão certamente as misturas, as mestiçagens conseguidas dos diferentes grupos sociais, étnicos e culturais provenientes de diversos continentes e paragens geográficas que convergiram no decurso de séculos (a partir do séc.XV) ao arquipélago de cabo-verdiano e aqui se fundiram, originando um povo e uma nação novos, com uma cultura própria a que poderá chamar de identidade cabo-verdiana ou simplesmente cabo-verdianidade”.

A cabo-verdianidade, assim, é a expressão da identidade crioula. É o sentimento que o cabo-verdiano tem de si próprio, da sua especificidade cultural enquanto povo dotado de uma cultura própria e diferente das outras culturas.

A cabo-verdianidade se manifesta no resgate e na valorização da cultura cabo-verdiana e nas práticas que a reafirmam, seja nas artes, nos contos populares, no sincretismo religioso, nas festas populares, nas danças etc., veiculados na literatura e na imprensa como proposta de emancipação cultural e de afirmação identitária.

Além do conceito de cabo-verdianidade, os intelectuais cabo-verdianos também elaboraram outras denominações como formas de expressão da identidade cultural cabo-verdiana, tais como a africanidade, que refere aos contributos negro-africano na formação social cabo-verdiana, e a criolidade, que diz respeito à natureza mestiça da cultura cabo-verdiana e à valorização das suas manifestações materiais e imateriais.

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