Apontamentos O que são conceitos e conceitualização

O que são conceitos e conceitualização

No item anterior, nós dissemos que o significado de um signo lingüístico não é um objeto no mundo ao qual o signo faz referência. O significado é uma entidade abstrata. Nós estávamos falando sobre o signo ‘mesa’.

Existem milhões de mesas no mundo, cada uma diferente da outra: algumas maiores, outras menores, algumas de madeira, outras de metal, algumas redondas, outras retangulares. Se o signo ‘mesa’ associasse uma pronúncia a uma mesa específica, nós teríamos que dizer que o signo ‘mesa’ tem um significado diferente para cada objeto mesa que existe no mundo. Não é isso o que acontece.

Nós todos temos, em nossas mentes, uma ‘idéia’ de mesa, uma abstração que nos faz saber o que é uma mesa, e que nos ajuda a reconhecer uma mesa quando estamos diante de uma, não importa qual seja sua forma, o material de que é feito, seu tamanho, ou qualquer outra peculiaridade que ela tenha.

Essa ‘idéia’ que temos de mesa é o conceito de mesa. Muita gente tende a achar que um conceito corresponde a uma imagem pictórica mental. Mas essa idéia é errada. Primeiro, porque um grande número de signos de uma língua designa coisas que não são fácil ou diretamente imaginadas pictoricamente. Qual seria a imagem pictórica de um signo como ‘ar’, por exemplo? Ou ‘ternura’? Ou ‘amizade’? E qual seria a imagem pictórica de conceitos associados a adjetivos como ‘honesto’, ‘seguro’, ‘bom’.

E dos conceitos associados a verbos como ‘ser’, ‘estar’ ou ‘ter’? E dos conceitos associados a preposições como ‘de’, ‘por’, ‘com’? Além disso, mesmo quando estamos tratando de objetos concretos, a imagem mental que fazemos dele acaba sendo ou muito específica ou muito genérica.

Vamos fazer uma imagem mental de um pássaro, por exemplo. Ela pode ser muito específica, apresentando certos detalhes que certamente não correspondem às características de todos os pássaros que vamos encontrar por nossa vida afora. Nossa imagem pictórica mental pode, por exemplo, apresentar penas de diversas cores, um bico forte, asas grandes, e uma cauda majestosa.

Mas nós certamente vamos encontrar muitos pássaros com penas de uma cor só, bico minúsculo, asas pequenas e caudas que são até difíceis de perceber.

Mesmo assim, quando encontramos um pássaro com essas características, não vamos ter problemas em reconhecer que se trata de um pássaro.

Por outro lado, podemos fazer, em nossas mentes, uma imagem pictórica de pássaro que seja muito esquemática, ou genérica. Uma imagem esquemática é muito abstrata, não apresenta muitos detalhes. Essa imagem também vai ser problemática, na medida em que ela vai acabar não trazendo informações suficientes a respeito de muitas características que fazem, de uma determinada entidade, um pássaro, e pode acabar não nos ajudando a reconhecer um pássaro quando encontramos um.

O que acontece é exatamente o contrário dessa idéia de que conceitos são imagens pictóricas mentais. Nós somos capazes de criar uma imagem pictórica mental de pássaro porque temos o conceito de pássaro, e baseamos nossa imagem nesse conceito. Mas ter o conceito de um objeto não exige que nós formemos uma imagem mental desse objeto.

Afinal, o que é um conceito? Alguns teóricos propõem que um conceito é um princípio de categorização. Quando temos um conceito como [PÁSSARO] sabemos o que é um pássaro. Esse conceito é que faz com que reconheçamos um pássaro quando estamos diante de um.

A partir desse momento, nós sabemos que podemos usar o signo ‘pássaro’ para fazer referência aos pássaros que encontramos. Nós sabemos que pássaros são animais, que, em geral, têm penas e voam, que têm bicos, que emitem um certo tipo de som, que têm pés que lhes permitem agarrar coisas e que os ajudam a se segurar em galhos das árvores onde pousam, que podem ser apreendidos pelos seres humanos e mantidos em gaiolas como animais de estimação, etc.

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Todos esses aspectos fazem parte do conceito [PÁSSARO]. Da mesma forma, e pelo mesmo processo, sabemos também que algumas entidades não são pássaros.

Toda vez que usamos a palavra pássaro para fazer referência a dois animais diferentes (como um pardal e uma galinha, por exemplo), estamos fazendo um ato de categorização. Ou seja, estamos reconhecendo que esses dois animais diferentes têm características em comum a tal ponto que podem, ambos, ser enquadrados na categoria PÁSSARO.

Embora as relações entre signo, conceito e categoria sejam muito próximas, elas são bem diferentes. Um signo é a união entre um conceito (significado) e um significante. Um conceito é um princípio de categorização.

E uma categoria é um conjunto de entidades (que podem ser objetos, eventos, situações, relações ou conceitos) que têm algo em comum. Vamos grafar os signos entre aspas: ‘pássaro’; os conceitos entre colchetes: [PÁSSARO]; e as categorias em maiúsculo: PÁSSARO.

Se aceitarmos essa noção de conceito, não vamos ter dificuldade para entender os conceitos de entidades abstratas, como [AMOR], [BONDADE], [INFÂNCIA], etc., nem conceitos expressos por verbos como ‘ser’, ‘estar’, ‘ter’, nem conceitos expressos por preposições, como ‘de’, ‘com’ ̧etc. Por menos concretos que esses conceitos possam ser, todo falante de português sabe bem a diferença que existe entre eles. Vamos tomar, como exemplo, as expressões em (6) e (7) abaixo:

(6) Eu vi o médico do Chico.

(7) Eu vi o médico com o Chico.

Vimos, acima, que não é possível fazer uma imagem pictórica do conceito de uma preposição. Entretanto, quando nos deparamos com exemplos como os em (6) e (7), sabemos que a relação que se estabelece entre médico e Chico em (6) é diferente da relação entre médico e Chico em (7).

Isso mostra que os conceitos que temos das preposições ‘de’ e ‘com’ nos ajudam a fazer categorizações adequadas a respeito das relações entre entidades. Ou seja, por causa dos conceitos que temos das preposições ‘de’ e ‘com’, colocamos as relações expressas nas sentenças (6) e (7) em categorias diferentes.

Tomemos, ainda, os seguintes exemplos:

(8) O Chico é um bom professor.

(9) O Chico tem um bom professor.

(10) O Chico é bonito.

(11) O Chico está bonito.

É impossível fazermos uma imagem pictórica mental dos conceitos de verbos como ‘ser’ , ‘estar’, ‘ter’, etc. Entretanto, quando estamos diante de exemplos como (8), (9), (10) e (11), vemos que somos capazes de apreender os conceitos desses verbos, na medida em que somos capazes de colocar as relações estabelecidas por esses verbos em categorias diferentes.

Sabemos que a relação entre Chico e um bom professor, estabelecida pelo verbo ‘ser’ (em (8)), é diferente da relação entre Chico e um bom professor, estabelecida pelo verbo ‘ter’ (em (9)). Da mesma maneira, sabemos que a relação entre Chico e bonito estabelecida pelo verbo ‘ser’ (em (10)) é diferente da relação entre Chico e bonito estabelecida pelo verbo ‘estar’ (em (11)).

Saber categorizar as relações estabelecidas por verbos ou preposições, e saber categorizar os referentes dos nomes (ou substantivos) significa saber o significado dos verbos, preposições e nomes. Essa idéia é compatível com a idéia de Saussure que vocês viram no curso de Introdução aos Estudos Linguísticos, segundo a qual a língua é um princípio de classificação.

Certamente, a língua é o instrumento mais poderoso que os seres humanos têm para fazer categorizações; ou seja, a língua é um instrumento que nos ajuda a classificar as entidades físicas e abstratas que nos rodeiam, e as relações que se estabelecem entre elas. Na próxima unidade, vamos nos deter um pouco mais na noção de categorização. Mas, antes disso, agora que já vimos o que é um conceito, vamos falar de conceitualização.

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Como já vimos várias vezes, os signos linguísticos são associações convencionais entre uma forma e um conceito. Mas, se pensarmos em toda a construção de significado que fazemos, quando dizemos ou interpretamos um enunciado, vamos ver que os conceitos que formam os signos são muito limitados. Esses conceitos são apenas instruções rudimentares para darmos início a um processo de criação de idéias ricas e elaboradas, que vão além da contribuição dada pelos conceitos.

Esse processo de construção de significado é chamado conceitualização. Para exemplificar, vamos tomar a palavra ‘pular’. Todos nós sabemos o que essa palavra significa. Todos temos um conceito do evento de pular. Mas vejam que, se o evento for o de pular corda, vamos estar diante de algumas maneiras bem específicas de pular: podemos pular corda tirando os dois pés do chão ao mesmo tempo, podemos pular corda tirando primeiro um pé, depois o outro, e podemos pular corda como os boxeadores fazem. Todas essas maneiras de pular são muito diferentes das maneiras que temos de pular um muro.

Se o muro for baixo, podemos pulá-lo passando uma de nossas pernas por cima do muro, enquanto o outro pé fica apoiado no chão. Ou podemos correr para tomar impulso, e pular o muro como em uma corrida de obstáculos. Podemos, ainda, dar um impulso, segurar o topo do muro com as duas mãos, elevar nosso corpo até o topo, e depois pular para o outro lado.

De um jeito ou de outro, quando pulamos um muro, normalmente evitamos pular de cabeça, não é? Se pularmos de cabeça, corremos o risco de nos machucar seriamente!

Entretanto, se o que houver na nossa frente não for um muro, mas uma piscina, podemos pular de cabeça, se quisermos. Vejam, então, que embora a palavra ‘pular’ tenha um significado, ele é apenas parcialmente responsável pela conceitualização que fazemos a partir dele.

Como dito acima, os signos linguísticos trazem apenas instruções gerais para darmos início a um processo de construção de significação, que tem como base fundamental aquilo que se chama conhecimento enciclopédico.

O conhecimento enciclopédico que cada um de nós tem é resultado de nossas experiências de vida. É porque pulamos corda em nossa infância, ou vimos outras crianças pulando corda, que sabemos que existem diferentes maneira de pular corda, e que pular corda é diferente de pular um muro, ou de pular em uma piscina.

Para construir conceitualizações a partir da expressão ‘pular’, usamos todo esse conhecimento. A expressão ‘pular’ ela mesma serve apenas para disparar esse processo de conceitualização. Na Unidade 4, vamos aprender um pouco mais a respeito do conhecimento enciclopédico que temos e que é fundamental para a construção do significado.

Mas antes, vamos estudar mais sobre a categorização.

Um “enunciado” é o resultado de uma “enunciação”, que é a língua sendo usada. Qualquer uso real da língua é um enunciado. Ele sempre vai ter um autor (a pessoa que falou) e alguma situação em que é produzido. Vai ter também uma pessoa que o interpreta e alguma situação de interpretação.

No caso de um enunciado escrito (como este que estamos escrevendo aqui) ou filmado, vai haver uma situação de interpretação diferente da de produção, e a pessoa que interpreta pode nem conhecer o autor. Isso é diferente de uma situação de conversa, em que as pessoas que falam e interpretam o que é falado ocupam todas o mesmo espaço, simultaneamente.

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